terça-feira, 15 de maio de 2012

Escolher


foto: Dan Bass

Li hoje um artigo no jornal, resultados de mais um estudo, se os casais com filhos são mais felizes que os casais sem filhos. Estudos anteriores diziam que os casais sem filhos, entre os anos 70 e os 90, penso, eram mais felizes que os casais com filhos. Que mudou em meados de 90 até 2008, data do estudo. Como se mede isso? Como se mede a felicidade de uma pessoa? Como se mede a satisfação de uma pessoa? Não me ausento dos pensamentos do que desejei e esperei, e que hoje poderia ter mudado a minha vida, caso tivesse sido pai há algum tempo atrás. 
Mas, da mesma forma, todas as nossas decisões têm consequências, para nós e para os outros, e como tal é necessário viver com isso, aceitar essas decisões e essas consequências. Querer isto ou aquilo, implica uma escolha. Nem sempre acertada. Mas implica ter um papel activo. E viver com isso, repito. Há decisões fáceis e quase inconsequentes, mas mesmo essas significam rumar para ali em vez de rumar para além. E o caminho ramifica-se uma, e outra vez. 
Daí que dizer que os casais com filhos são mais ou menos felizes que os outros me parece inválido. Conheço ambos os casos. Não encontro termos de comparação. Assim como conheço pessoas sozinhas mais e menos felizes que casais. Como conheço casais inteligentes mais e menos felizes que casais menos inteligentes.
E assumo-me incorrecto e errante e "pecaminoso" (se a palavra ajuda a descrever), mas sou mais feliz assumindo os meus desejos e os meus atropelos à liberdade dos outros, do que quando procurava libertar-me de tudo isso, que no fundo faz de mim apenas humano. Mas ao menos não sou hipócrita, e não dobro essa "procura" conforme me apraz. Nem procuro encaixar na sociedade, e mostrar-me, e vender-me. Cedo e falho e perco-me vezes sem conta, sou fraco e caio em facilitismos com frequência. Mas pelo menos tenho a certeza de que sou eu, mesmo que não saiba quem sou.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Zeros

Temos o que queremos. Quase sempre no imediato. Tudo o que somos e tudo o que temos se deve a nós, e não à "vida", ou ao "destino", ou a um deus qualquer. Atribuir justificações, mesmo que apenas intimamente, para nós próprios, é já inconsciente, tal é o hábito com que crescemos. Agora porque tenho de trabalhar, agora porque tenho de estudar, agora porque tenho de ir comprar umas botas, agora porque tenho de ir viajar. E tudo porque porque. E nada fica natural. Nada é deixado puro, tudo é formatado, tudo é condicionado, tudo é pensado e racionalizado e pesado e medido e comparado. E passas a querer algo idêntico ao que os outros querem. Passas a identificar-te com o que os outros fazem. E o que identificas como ser original, é apenas ser melhor que os outros em algo: ganhar mais dinheiro, ser mais bonito, ou mais forte, ou ir mais longe, ou ser mais famoso, mais, mais, mais. Sempre um mais. Mas a palavra "mais" implica um termo de comparação. É sempre "mais que" alguém, algo. "Mais"... do mesmo. E a tua identidade é apenas isso mesmo: "mais" um, "mais" do mesmo. "Tu" não existes, "Tu" és uma parte do todo. Certo, estás integrado, fazes parte, pertences.

Passei algum tempo em que me fechei. Em que me isolei. Contactava socialmente no emprego, e essa era a minha única ligação. De qualquer forma, ausente de confianças, e formal. E distanciei-me o suficiente para sentir quem sou. E rio-me quando ouço alguém dizer que sabe o que quer, que sabe onde está, que sabe quem é. Eu não sei. Porque quem sou não sei dizer. Porque se digo que sou ninguém, isso significa que não encaixo nos nomes e adjectivos que conheço, que descrevem algo limitado, e eu ainda não encontrei os meus limites e definições. E onde estou? Estou onde os meus passos me trouxeram, e não soube, ou não quis, ou simplesmente não escolhi dar outros. Mas os passos foram sempre os meus. E o que quero? Não sei. Sinto os dias. Porque já quis muito, já fiz muitos planos. E não controlo os dias, não controlo nada mais que os meus passos e as minhas decisões. Não deixo, de uma forma mais ou menos consciente, de planear, de projectar, de procurar. E porque temos o que queremos, preciso perceber o que realmente quero. E paro, frequentemente, e tento sentir o que de verdade desejo. Porque é fácil cair no conhecido, no generalista, nos desejos dos outros, nos desejos comuns. E quando se está, como estive, isolado, acompanhado de mim, lidando só comigo, sem fuga, todos os desejos externos se desfazem, se não procurarmos neles o alívio para a solidão. Se abraçarmos a solidão, temos todo o tempo com o nosso íntimo. E percebemos que viver em sociedade custa-nos a identidade. E ter a consciência disso pesa-me e em cada segundo que me deixo parar e invejar algo ou alguém, ou querer ser ou ter ou estar, irrito-me e zango-me comigo, porque é tudo falso. É tudo uma fuga para facilitar o meu dia.

No fim de contas, tudo exterior a ti é uma limitação. Mas dança conforme a música, se é isso que te dá conforto.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Vermelho-Fogo

Odeio. É um sentimento. Não o nego. Dei finalmente a volta completa, e odeio. Odeio não confiar mais em mim próprio, nos meus instintos, saber o que me diz o aperto no estômago, as mãos a suar, a dureza na expressão. Odeio acreditar nos outros, quando no fundo me conheço, quando no fundo sei quem sou, e sei que a minha visão não é nem está toldada pelo orgulho ou por uma necessidade de estar sempre certo, como se toda a interacção humana fosse uma competição, como se estar sempre certo seja melhor, mesmo que para isso fechemos os olhos ao que não queremos ver. Odeio quando percebo que permanentemente valorizo os que me rodeiam, porque vejo esse valor, e tudo o que sinto é que acabo diminuído. Que sou, muitas vezes, menos que uma nota de rodapé. Odeio não ser um cabrão. Odeio não ser um mentiroso, um filho da puta, um egoísta. Odeio odiar. Odeio sentir, ódio, amor, raiva, tudo, tudo. Odeio não ser capaz de sentir indiferença, e sinto-me ferido por isso. Odeio, odeio olhar em redor com o sabor de ódio na boca. Odeio teorias, histórias, desculpas, argumentos, distracções, odeio o silêncio de guerra em que me encontro. Odeio não saber mentir. Odeio não saber ocultar. Odeio duvidar. Odeio passar num mundo vazio, e no meio de todos, não ver ninguém. Odeio que a minha cor sejam as minhas palavras. Odeio as palavras que amo, que são sempre minhas, que são sempre minhas e sentidas. Odeio. Repito: Odeio! Odeio sentir que nada do que penso é verdade. Tudo o que é real é o que sinto. E ninguém explica o que é sentir. Odeio o ar que respiro, que hoje me falta, que me prende, que me inflama. Odeio odiar tudo isto, porque tenho que odiar, porque tenho de confiar, porque tenho que ser, que sentir. Porque odeio, e este é o meu lugar, hoje.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aqui, Nu, Agora


Este ano tudo mudou: relacionamentos, família, amigos, emprego, estudos, habitação, mobilidade, mentalidade, cultura, espiritualidade, corpo. Aprendi muito, descobri muito, conheci muito, esperei, projectei, realizei, desiludi, apoiei, afundei-me, levantei-me, regredi e cresci, entrei, saí, desci, subi, ouvi, falei, calei, desejei, chorei, ri feliz, sorri triste. Recebi, dei, acreditei, ganhei e perdi. Tudo isto repetido, poucas ou diversas vezes. Foi um ano intenso, procurei acalmar por diversas vezes, fechar-me ao mundo quando encontrava conforto num lugar, numa acção, numa pessoa. Por vezes de forma errada, por vezes correcta, acalmar era um objectivo errado, quando o que procuro é paz. E isso é muito diferente, pois posso encontrar no meio do turbilhão, da correria, do caos, a paz que preciso. Foi um ano tremendo, um ano repleto de dias especiais, de sensações onde vibrei à mais íntima fibra de mim, de desejos negros e de desejos puros, de fundo do poço e de topo da montanha. De muito suor, de luta, de esforço, e de dormência também. Sei agora  mais do que sou, sei mais o que quero, sei mais o que sinto. A minha impulsividade, a minha entrega, os meus sentimentos, desejos, fraquezas e dependências. Sei um abraço e sei um murro no estômago. Sei o poder do meu sorriso, e sei a escuridão no meu olhar. Sei o que não sei, o que não consigo ser, o que não consigo dizer ou fazer, mas também o que sou capaz de dar, de sentir, de ser. Sei-me agora mais nu que nunca. Mais humano, mais eu, sinto-me livre, agora, para errar caso o deseje, aceitando, e livre para recusar o que me for dado, ainda que na melhor das intenções. Aceito os desafios, finalmente começando a descomplicar, deixando de pensar em tudo e em todos antes de cada passo. Deixando de duvidar. Acreditando nas minhas mãos, rejeitando o fatalismo da "vida", do "universo", do "destino". Meu, pertenço-me. Vejo mais e melhor, vejo um mundo que não se conhece, vejo-me nesse mundo e sou eu. Excito-me com pequenas coisas, sinto que o agora é mais importante que o talvez. Gostaria que o talvez fosse o agora. Mas sou eu, mais que nunca, e sou fruto de mim, e do que fiz, do que pensei, do que caminhei. Sou eu, aqui, nu, agora.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Confissão

Assumo-me como Homem. Cheguei à realização de que todos andamos à procura e não há nada que procurar. Há sim, que viver. Criámos religiões, filosofias, credos, ideologias, comportamentos e rituais para nos confortar, para nos dar apoio por não sabermos realmente tudo. E passamos a vida inteira acreditando nisto e naquilo, sempre a lutar, sempre a evoluir, sempre a investir no futuro. E restam-nos apenas dois caminhos: ou esquecemos a luta pessoal, como indivíduo, e vivemos confortavelmente ao sabor da corrente da sociedade, rindo com os outros, chorando, vivendo sem pensar, sem preocupar com nada que não seja o comum, cometendo os mesmos erros e desrespeitando o próximo na forma "normal"do dia a dia, ou buscamos um significado mais profundo do nosso ser, procuramos evoluir, entender, melhorar, lemos muito, meditamos, rezamos, tornamo-nos ascetas privando-nos do alimento, do sentimento, do próximo, do planeta, se possível. E no meio de tanto pensamento, tanto estudo, tanta evolução, tanta busca de respostas, alguém alguma vez pensou que tudo, TUDO isso pode apenas ser fruto do nosso cérebro? Que constantemente cria raciocínios e explicações mais ou menos lógicas para o que o confronta, situações, emoções, e faz uma gestão influenciada de tudo isso. O derradeiro criativo! E com tanta definição, esquecemo-nos de sentir, genuinamente. De ser, genuinamente. Falo por mim, agora.  Recentemente percebi que estou muito condicionado pelo respeito que procuro ter pela liberdade das pessoas, ainda que muitas vezes falhe, ou por falta de visão, ou por envolvimento emocional, ou por ambos. Mas quando me apontam que não posso pedir, nao posso exigir das pessoas, eu percebo, e sim, tem lógica, e sim, o meu cérebro diz que é correcto não o fazer. Mas eu quero, e sinto, e genuinamente sou assim. Não sou um asceta, não sou um mundano. E sim, percebo que me excedo muitas vezes, e aí sim, o meu cérebro deve contribuir para um respeito devido, mas não , não devo deixar de querer, de pedir, se é isso que a minha essência sente e deseja. Sinto que quero agora, ou que quero amanhã, ou que quero daqui a 2 anos, então permito-me querer isso tudo. Sim, estarei a fazer planos. E a aceitar que podem implicar e chocar com outras pessoas. E eu quero o que quero, e posso deixar de querer, e posso alterar os planos, posso combinar esses planos com os outros, posso fazer cedências ou não, mas tudo isso é meu, é humano, e é sentido. Não é mais egoísta que querer o conforto da dormência dos dias e noites "mundanos", "normais", de trabalho-casa-familia-televisão-café; não é mais egoísta que a busca da individualidade impenetrável, onde cada um é deus em si mesmo e o mundo e o universo e a realidade. É o meu egoísmo, onde eu sinto, eu assumo que quero, e ainda que esteja a "pisar"dentro da realidade e da liberdade dos outros, estarei a abrir a minha liberdade a eles, e a partilhar-me, a deixar entrar. Se não o fizer, vou estar a impedir imensas possibilidades, a isolar-me e aos outros, dentro das suas "bolhas". Se o fizer, vou estar a dar um passo na direcção de alguém, e na direcção do que desejo. Posso calcar o pé de alguém. Posso roubar espaço a alguém. Ou posso descobrir que não há limites para os espaços de ninguém, se todos se abrirem.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Momento de Viragem

"Tudo a bombordo", grito. E rumo para norte, para a neblina, para o incerto, mas também para o novo, para o por descobrir. Rumo e no rumar está o sentido, e o destino mudará, provavelmente, mas o que passou a importar é a nau, e o caminho que percorre, e o mar em que se encontra. Se esse mar é profundo, se tem correntes perigosas, ventos favoráveis ou contrários, não importa. Importa existir o momento, e a nau. Destino, será venturoso, será uma praia, será um porto seguro, serão os escolhos ou as escarpas de uma qualquer costa perdida, não importa. O mar calmo que percorria, abandonado em desinteresse e paz, também se ficou para trás. Teve o seu propósito. Mas agora, com o casco reparado, com velas novas, é tempo de navegar de novo, agora sim, vivo, de procurar as ondas, de senti-las bater na proa, o vento a fustigar os panos, o cordame a assobiar nas tempestades, a espuma brava e branca a picar forte na face.  Ergo-me renovado e vivo, sinto crescer em mim o Adamastor, com os seus humores de destruição e de admiração, sinto-me percorrido de correntes quentes e frias, amor louco sem fim seguido de solidão desolada, fraternidade real e sincera seguida de ódio quase global, e de regresso ao amor completo. Tudo isso me faz sentir vivo. Confio agora no mar, entrego-me com fé ao seu abraço, deposito nele o meu tesouro, rendo-me ao meu caminho. E é este o meu propósito: navegar. Não mais será chegar. Não será chegar um porto que desconheço. Navego agora. Neste mar que sou, também, eu.