domingo, 21 de dezembro de 2008

Teatro


(imagem: www.ccbeunet.br)

       Uma nova experiência, uma nova arte: o Teatro! E que experiência! Irrepetível! Um grupo de pessoas, heterogéneo em idades, credos, profissões e personalidades, todas dispostas (talvez não todas de início, mas essas motivaram-se) a dar o seu melhor, a seguir cegamente as directivas dadas pelos formadores, sem questionar, sem imaginar muitas vezes o resultado dos exercícios. E que exercícios, alguns pesados fisicamente, alguns com uma força emocional muito grande, todo o grupo de formandos se entregou nas mãos de algumas pessoas muito especiais, que nos abriram os sentidos para uma nova realidade. Muito obrigado, Formadores, pela entrega, pela dádiva, pelo empenho.

       As pessoas mudam. Eu mudo. Mudo e não me enquadro, e isso deixou de me preocupar. Porque esta formação fez-me perceber muita coisa acerca de mim e dos outros. Conheço-me mais e melhor, agora. E quanto aos outros, houve os que me tentaram ridicularizar, para pelo menos aparecer na peça final e ver o resultado da formação. Pareceu-me gostar, no fim de contas. Houve quem viesse de longe, para ver, apenas porque eu convidei, apenas por saberem que era importante para mim. Houve quem não viesse, pessoas próximas, amigos próximos, pelos seus motivos, talvez. Não disseram sequer. Não perguntaram sequer. Não posso criticar. Não sabiam, penso, a importância que teve para mim. Houve sim, quem fosse uma presença constante em quase todos os espectáculos, e soube bem, e confortou ter uma cara amiga na plateia, fosse para aplaudir, fosse para melhor criticar e comparar. Obrigado, muito obrigado a quem foi.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ensino: resultado fácil no imediato, hipotecando o futuro

(foto: www.uberreview.com)

Eu não sou professor. Conheço muitos maus professores. Tive muitos maus professores. Mas por princípio, por educação, e por sentido de valor sincero, sempre os respeitei. Distingui os meus professores por classificação ligada ao meu sentimento por eles: Respeito (ok, pelo menos na presença deles, cá fora não podia ver alguns) e admiração (disciplinas favoritas, com bons profissionais). Mas independentemente disso, havia um sentido de autoridade básico: eu estava ali com uma pessoa que sabia coisas que eu não sabia, e eu estava ali para aprender, e ela para ensinar. Ora isso não é uma troca. Eu sou sempre o interessado e essa pessoa é o fornecedor, um fornecedor que recebe, quer entregue a mercadoria, quer não. Ora assim sendo, quando um professor, sem ser obrigado, ainda se preocupa que os alunos aprendam e aprendam bem (e não me refiro às avaliações a que agora estão sujeitos), isso é revelador de um sentido profissional e humano e um aluno só tem a ganhar com professores assim. 
Mas nada disto se passa neste momento. Se há uns anos atrás havia um facilitismo criado por alguns (talvez muitos, talvez poucos, sempre demasiados), isso derivava do respeito que anteriormente se vivia pelos professores e pela rara oportunidade de poder estudar. Passámos para uma época de maior capacidade económica, mais alunos, mais necessidade de alfabetizar o povo, e com a entrada na UE, para tapar os olhos aos outros países, alteraram-se os critérios para passar mais alunos. Erro. A falta de exigência trás sempre bons resultados a curto prazo, e resultados desastrosos a médio e longo prazo. Os professores, com os baixos critérios que lhes eram exigidos, desinteressaram-se. E com as regalias conseguidas, deixaram de trabalhar para ir fazer umas horas à escola. Ouvi coisas do género "Vamos fazer ponte esta 6ª e vamos à serra da Estrela""não posso, tenho 3 turmas, só se meter um artigo...". Ok, todas as profissões metem baixas de tanga, toda a gente faz isso, lá estou eu a culpar os professores. Não é bem assim. Refiro-me a professores que sei que tinham horários de 26-30 horas semanais, alguns menos. Tinham tarefas de direcção de turma, ou do núcleo de física ou de inglês ou etc? Concordo. Isso levava-os às 40 horas? Duvido. A profissão é delicada e stressante? Concordo. Mas tem pausas de hora em hora, e fica-se na maioria das vezes por um máximo de 6 horas ao dia 4 dias por semana. São os licenciados mais mal pagos? Concordo. Se não contabilizarmos essas regalias, os dois meses de férias por ano, mais os 3 dias de descanso semanal, e os dias de 6  horas. Se somarmos isso tudo, percebemos porque de repente ficámos lotadíssimos de professores, tudo quer ser professor. Entendam, isto é só parte da história, há o que têm de aturar, os alunos que vêm de casa por educar, a variação de humor do professor, que ainda assim tem de se adaptar e dar uma aula ainda que tudo lhe esteja a correr mal, o preparar das aulas, dos exames, a correcção dos exames, o dar notas, tudo isso custa aos professores minimamente profissionais, e ocupa tempo extra fora das aulas. Mas sejamos razoáveis: por que razão ficámos inundados de repente com professores?

Isso foi no meu tempo de aluno. Entretanto as coisas mudaram, e neste momento custa-me ver o que se sofre na docência. Por um lado, toda a formação moral deste país descambou. Os pais dão razão aos putos mimados, como dão as consolas e os telemóveis desde o berço, porque não têm tempo. Porque trabalham os dois, ou porque os filhos fazem-se como se faz o casamento, é uma linha de montagem, nasces, estudas, trabalhas, casas, trabalhas, tens filhos, trabalhas, reformas-te e morres (por vezes não é cumprido o penúltimo passo). E porque o tempo de qualidade familiar é ao jantar, com a telenovela ou a bola, tudo vai bem com os miúdos, e se vem uma nota da professora a dizer que o menino passa as aulas a enviar SMS, o pai diz "Então e isso incomoda? Queria que ele telefonasse ou passasse a aula na conversa com os colegas, não?" e não lhe passa pela cabeça que é o facto de o menino não estar a aprender que está em causa, e a professora é que está preocupada! Mas isso é típico, conheço um indivíduo que uma vez disse: "a educação do [meu] rapaz é responsabilidade dos professores, não é minha!" e acredita plenamente nisso! 

E temos o caso noticiado da "gorda peixona", do "Dá-me o telemóvel já!", que todos seguimos com desgosto, como se fosse algo que não acontece todos os dias. É algo que acontece todos os dias! Li uma notícia há pouco que mostra isso, e pior, mostra os pais a acharem-se com tanta razão que levam as coisas a tribunal! Notícia no JN online de hoje, 29 de Outubro de 2008: "Mãe de aluno condenada por agredir professora". Ok, tudo bem, uma história que não me espanta, mas a curiosidade que nos leva a procurar os pormenores levou-me a ler o artigo. Pois em Novembro de 2006, numa reunião que teve lugar na escola, solicitada pela mãe, que não aceitava o arquivamento de um processo instaurado pela docente contra o filho por agressão. A mãe desejava que a professora pedisse desculpa e que admitisse ter sido ela a bater no rapaz e não o contrário. A recusa da professora causou o descambar da reunião (conselho executivo e director de turma presentes) e a mãe a chamar mentirosa à professora. Esta decidiu retirar-se por falta de condições, mas foi impedida pela encarregada de educação, que também a impediu de ligar às autoridades, dando-lhe uma palmada na mão (provavelmente a do telemóvel, digo eu), ao que a docente reagiu empurrando a mãe, que caiu (que o tribunal considerou legítima defesa), e termina o caso com as duas a agarrar os cabelos uma da outra, depois de a professora ter sido agredida à bofetada e ao pontapé (ao verdadeiro estilo peixeirada). A mãe foi condenada, e a Juíza aconselhou-a a pedir desculpa, no mínimo (isto não faz parte da condenação) à professora , por não ter mostrado arrependimento e pelo comportamento destemperado e desrespeitoso a toda a comunidade escolar". 

É a isto que me refiro. Já não há moral, é cultivado o desrespeito e a desautorização, e o ensino vai de rastos. Ser-se professor é, agora, um suplício, com os ministros da educação e os governos a procurar na cartola qualquer milagre que resolva tudo, e agora estamos num ponto em que já nem a curto prazo nada melhora. Se é preciso quebrar o sistema todo, limpar o quadro e começar de novo? É. É preciso perceber as nossas diferenças e procurar noutros países exemplos de sistemas de ensino que se possam adequar à nossa realidade. É preciso criar gosto e valores humanos nas pessoas, talvez principalmente nos adultos, para que estes possam educar as crianças. É preciso mais que futebol e novelas para se ser uma família. E é sobretudo precisa a consciência de ideais, de valores, de agir como exemplo, a começar por cada um de nós, até isso se espelhar num governo, com resultado para todo o país. Não é utópico, não é impossível. Está tudo a um passo de cada vez, numa distância alcançável. Está tudo ali já. Porque a alternativa não é nada agradável, e cada um de nós que não faz nada arrasta-nos para ela.

domingo, 12 de outubro de 2008

Retrato de um Português Esperto



Conheço um típico português esperto, do qual vou transcrever algumas situações que presenciei. Ouvi coisas absurdas, que eu não poderia inventar, pois não conseguiria chegar a tanto. Deixo-vos à análise.

Passa um carro do INEM, muito apressado e aflito. Ouço: "Esses gajos também, pensam que a estrada é só deles!". Não comentei.

Conversa-se sobre o estado do ensino no país. Refiro que é complicado ser-se professor, quando os pais dos alunos não os educam. Ouço em resposta: "A responsabilidade é dos professores! Eles é que devem educar as crianças!". Calei-me.

Noutra altura ouço o telemóvel do português esperto, que toca uma vez e desliga-se. Ele liga, conversa algo que não liguei nem ouvi, desliga e ri-se, e diz-me: "O meu miúdo é que é burro! Tem um trabalho de Inglês para fazer, tem o computador à frente, tem internet, e em vez de o sacar da internet, não! Está a fazê-lo pela cabeça dele!". O miúdo tem 11 anos, e pelos vistos não sai esperto como o pai. Parece-me inteligente, talvez.

Chega o pagamento de um cliente, uma entidade ligada à Igreja. Comento "Clientes destes é que convêm! Dinheiro não lhes falta!", e responde-me: "O quê? Coitados, andam sempre a fazer contas à vida!", e eu argumento, apesar começar a ver a futilidade do acto: "Como, se fizeram agora um santuário novo, e nem precisaram mexer no ouro que foi todo para um museu?", e veio a sábia resposta: "oh, oh, você sabe lá! Aquilo foi dinheiro dos peditórios! Há muitos padres que se não for a caridade das pessoas, passam fome!". Aqui desisti, mas para gáudio particular, veio um dos patrões e diz: "É pá! Clientes destes é que interessam!", mas ninguém comentou.

Houve uma altura em que teve um acidente. Conta: "Ia na estrada, nuns terrenos verdinhos, onde estavam umas vacas muito bonitas a pastar, distraí-me a olhar, e quando dei por ela, tinha batido num carro que vinha em sentido contrário! Mas eu nem travei, tão distraído que vinha! Mas batemos no eixo da via, ela também estava fora de mão!" e fez um esboço. Certo. Era uma curva para a esquerda, para ele. Ele distrai-se e vai para o eixo da via. Ela entra na curva e depara-se com um carro no meio da via e um gajo a olhar para as vacas. Estanca o pé no travão, talvez carro sem ABS, derrapa para o eixo da via (lembro que ela curvava para a direita, física básica, derrapando vai para a esquerda). Ora para rematar "Eu não assumi culpa nenhuma! Os seguros que resolvam, a ver se fica a culpa dividida pelos dois!".

Chega um dia o indivíduo supracitado com um braço ligado, e marcas na cara (e no peito e abdómen, como tive mais tarde o desprazer de observar). Por alguma "bruteza" que fui adquirindo no local e também por temer a resposta, não perguntei o que se passou nem por delicadeza, mas a resposta foi-me dada sem pedir. Primeiro a versão "oficial" que disse a outras pessoas com quem falou: "Estava a fazer soda cáustica, para desentupir uns canos, e aquilo fez reacção muito forte e saltou-me para cima!". Achei estranha a quantidade que estaria a fazer só para desentupir uns canos, e fazer tamanha reacção, mas não sou especialista na matéria. Depois veio contar-me (e eu não perguntei...) que afinal "há uma árvore no passeio da rua, e as folhas caiem-me sempre para o jardim, e eu queria deitar a soda cáustica na árvore, para a matar! Mas a soda reagiu e saltou-me para o braço, a cara, a camisola, tudo! A sorte foi ter água mesmo ao pé e lavar logo!". E eu pensei: a natureza encarregou-se desta! Mas ele entretanto acrescenta: "Lavei-me, mudei de roupa e fui botar a soda na mesma! Já estava feita para isso, e pronto!".

E para já me fico com algumas, apenas algumas das histórias que retratam um típico português esperto, que enquanto trabalho, joga Solitário no seu computador.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Novos caminhos


(foto: www.ead.pt/blog/)

ouvindo Verdes Anos, de Carlos Paredes

É um mundo difícil, se queremos percebê-lo. E é saindo do trilho habitual que se vê o estranho que tudo é. Saí desse trilho há algum tempo (ou vou saindo) e tento trilhar um percurso novo, próprio, meu. Tento largar vícios sociais, culturais e educacionais, e ao mesmo tempo vejo-me perdido e a tentar recuperar o contacto. De novo, procuro avançar, conheço novas pessoas, novas ideias, novas liberdades, novas alegrias, e de imediato, o humano em mim se desilude na prisão, na pequenez, nos juízos e nas limitações de pessoas, que por conhecimento, abertura, vivência pessoal e até mesmo profissional deveriam ser maiores, mais livres de preconceitos e de vergonhas. É falha minha atentar nisso, e deixar que me incomode, quando lado a lado com elas se encontram pequenas luzes não corrompidas, com um carinho e um passo leve, e ainda assim presentes, atentas, genuínas e fraternas, que voltam a dar esperança na criação de algo mais belo, de algo melhor. Venham os detractores e os gozadores, venham os normais e os certinhos e os fracos e cobardes, venham os dirigentes e os líderes, as autoridades e as milícias! Pois as pessoas que falo perdurarão sempre de uma forma mais bela na memória de quem tocam. 
Partilho com uma pessoa assim, que me dá força ainda que não perceba o que poderá advir das minhas decisões. Tento ser livre, embora seja nessa demanda que tomo consciência maior do quanto limitado sou.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Tradição e Cultura VS ASAE

(foto: marisaono.com)

       Estive num pequeno espaço de turismo rural, apreciando a paz que se vive no interior do nosso país, e observo com agrado e delícia alguns artigos para venda, de fabrico tradicional, se não mesmo caseiro, e comento com a gerente do espaço a originalidade dos produtos, a raridade e bom aspecto, ao que me foi acrescentada a qualidade comprovada por diversos clientes. E depois a Bomba, que só não actua como uma bomba por já ser um "pão-nosso de cada dia": "...é uma senhora velhinha que fazia... deixou de fazer agora porque foi lá a ASAE. Ela até tinha tudo em ordem, mas as especificações obrigavam a obras e ela não podia, nem tinha dinheiro para isso, por isso acabou por deixar a produção...". E é isto, mais uma vez, temos a nossa tão afamada Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (também referida já por muitos como uma nova polícia política), a zelar pelos nossos interesses, e a levar mais uma pessoa a deixar de trabalhar, para viver apenas com a pensão que, a julgar pelas dos ex-políticos, dará para viver à farta! (não possuo dados acerca da anterior função da senhora, mas não creio que tenha sido política). Ora vamos pesar: menos uma pessoa a produzir, menos uma pessoa a descontar, a pagar impostos, a continuar a arte tradicional e os costumes riquíssimos do nosso país, mais uma pessoa a viver da pensão miserável com que este país retribui a vida de trabalho dos seus idosos, mais uma velhota encostada num lar, a olhar os que passam, à espera da morte, porque a ASAE acha que só se pode usar rolhas compradas à empresa certificada X em vez de as fazer ela, dos seus sobreiros, e produzir só numa oficina, e não em casa, ainda que até há pouco estivesse tudo legal, tudo limpo, tudo em ordem. 

       Havia um salão de chá em Aveiro. Era impecável, calmo, com uma diversidade de chás fantástica e de muito bom gosto, e com bolos a acompanhar devidamente, feitos pelos próprios, claro está, que eram possuidores de muita mestria na arte da confecção. Dei noutro dia com a porta fechada, e uma nota aos clientes informando educada e dolorosamente que por impedimentos de prosseguir actividade com a qualidade a que tinham habituado os clientes, optaram por fechar o estabelecimento. Refiro, por informações adquiridas junto dos próprios, que uma das obrigatoriedades impostas era de todos os produtos serem encomendados de fabricantes, uma vez que não tinham instalações próprias de fabrico (os bolos eram feitos em casa...). Presumo então que em vez do bolo delicioso de chocolate que comi da última vez, seria um bolo perfeitamente legal, com químicos suficientes para se conservar uma semana, afinal tudo o que o meu corpo precisa, conservantes!

       Vamos a ver: aparte o debate que se processa neste momento acerca da legalidade da ASAE, e antes que alguém que perde toda a fonte de rendimento e ainda é multado e enlouquecido pelo cúmulo ridículo disto tudo comece aos tiros e nem todo o treinamento que os agentes tiveram nos EUA os safa, aparte tudo isto,o  que nos resta, que opções temos, que pode o governo fazer para limpar esta esterqueira?

       Restituir-nos a capacidade de decisão. Se compras castanhas na beira da estrada, sabes que por vezes têm bicho. Mas já sabes isso à partida, porque provêm de pequenas produções, com poucos recursos, e muitas vezes sem recursos para uso de QUÍMICOS! Se compras queijo ao pastor, sabes q foi feito com as mãos. Mas também sabes que é leite, coalho e sal. Ninguém te engana com E-trezentos-e-picos e ingredientes que legalmente têm que vir referidos, ainda que não saibas o que são, ninguém saiba, nem haja estudos sobre o seu efeito. Vinho. Pisado com pés lavados. Lavados, mas pés de gente que trabalha. E vais buscar uns garrafões ao produtor que era amigo já do teu pai, e é uma pomada boazinha, barata, só de uva. E todos te perguntam onde o vais arranjar, pois é bom. Tudo isto é do nosso direito de escolha. Quem quer, tem em todo o supermercado. Que, espero eu, lutem contra o sistema, que quer cada pêssego embalado individualmente. E cada banana? Emprego: individualizador de bananas precisa-se; dá-se preferência a quem possua experiência com amendoins. E escolher meloas pelo cheiro (tenho nariz para o assunto!) acaba-se, pois cada meloa estará higiénica e hermeticamente embalada. 

       Ou seja: deixem-nos optar! Deixem respirar o país e a tradição! Ponham selos de certificação da ASAE em quem os requerer, e os restantes produtores que fiquem sem selo ou com um de "Produto Tradicional" ou  "Produto Caseiro", que seja! Não deixemos morrer os produtos tradicionais por uns escrúpulos ridículos que insistem em manietar também a nossa cultura! Acabemos com a ASAE como a conhecemos, partamos para uma fiscalização sã, mas humana e real!

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A estagnação no erro


(foto: Dailymail.co.uk)


Chega. Que caminho é este que seguimos, que seres humanos nos tornámos, numa época em que supostamente todos deviam ser mais formados, mais educados, mais livres, em que a melhoria das condições sociais deviam permitir uma melhor convivência, e em vez disso sucede o oposto, e a dignidade humana descobre novos fundos.

Uma jovem de 24 anos sai com o namorado de 22, que conheceu pelo teletexto. Era Domingo e iam à piscina. Quatro dias depois o namorado é detido pela polícia e entrega a arma com que tinha baleado e abandonado na beira da estrada a rapariga naquele Domingo.É só um caso. O leitor condescende a jovem, pensa que nada do género aconteceria a uma filha sua, que é esperta, e nunca se encontraria com alguém assim! - (a filha está no quarto, na internet, numa sala de chat com um indivíduo de 49 anos chamado Surferboy) - esquece a vítima e passa à morbidez da mente distorcida do atacante: o que foi que ele fez, como, porquê, onde arranjou a arma, foi paixão, ciúme, loucura, trauma, o que vai ser dele agora, vai preso, é dado como maluquinho, alega insanidade!

Isto é um caso extremo, porém não incomum. E todos nós somos responsáveis. Sei pessoalmente um caso, (um de muitos) uma jovem, bonita, alegre, inteligente, simpática, boa aluna, namora um rapaz bem-parecido, de presença um pouco apagada, algo tímido, bom rapaz. Ela quer prossegir estudos, tirar um curso. Ele não quer que ela vá. Discutem vezes sem conta, e um dia ele ameaça que lhe bate. Arrependido ele, ela assustada, ele "cede" (como se fosse dele a decisão!!!!) e ela vai para a Universidade. Ela sai à noite quando ele está. Quando não está, ela liga a perguntar se pode sair com as amigas, que ele frequentemente proíbe. Novas ameaças. Ela termina o curso e arranja um emprego medíocre, pois quando estagiou e lhe prometeram um futuro na empresa, ele não quis que ela ficasse, seria um posto superior ao dele, melhor remunerado. E casam. E ele chega a casa e senta-se, como fazia o seu pai. E ela trata da casa e da comida e de tudo, mesmo depois de um dia de trabalho duro. Como a mãe. E ele quer sexo hoje. E ela não tem escolha. Nem prazer. Nem carinho. Recusando, é acusada e insultada, e ameaçada e maltratada. E amanhã, quando educar o seu filho e a sua filha, a ele, manda-o sair da frente e ir lá para fora brincar, num dia bom, manda-o arrumar o quarto, a ela, manda-a arrumar o quarto e a casa, e cozinhar e tratar da roupa. Como a sua mãe fez com ela...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

O homem sem um braço


Realiza-se a cimeira do G8 no Japão. Tema: a fome. Menu: 25 pratos, caviar, trufas, vinhos franceses. Não convidados que participaram em reuniões anteriores: representantes da Etiópia, Senegal ou Tanzânia.  Custo total da cimeira: 358 milhões de Euros (358.000.000,00€). Custo só do centro de imprensa, construído propositadamente para o evento: 30 milhões de euros.


Conheço um homem sem um braço. Não sei como o perdeu. E no outro dia, uma criança chegou, uma criança que ele não conhecia, e disse "tu não tens um braço!" e ele explicou como o perdera. 


E eu pergunto onde está a nossa inocência de crianças, porque deixamos de questionar o óbvio, porque não nos admiramos com o que não está certo, porque não choramos quando estamos indignados, e não o dizemos em voz alta, e não o apontamos, sim apontamos como uma criança aponta para algo que não compreende, que não percebe porque tem de ser assim, e a seguir vai para casa e planta uma pevide de melancia, e diz à mãe que é para dar às pessoas com fome.


(imagem: autor desconhecido. fonte: Diário de Noticias)

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Humanidade Vs PNVD

(imagem e fonte informativa: Wikipédia)

Partij voor Naastenliefde, Vrijheid & Diversiteit

- Partido do Amor ao próximo, Liberdade e Diversidade. É este o novo partido holandês que vem dar a cara a mais um tumor humano. Desta vez, não é um extremismo religioso, nem uma facção guerrilheira pela independência de um pedaço de terra. É um misto de humanidade e desumanidade assombrosa, ambas levadas a um extremo irreal e, espero, inalcançável. Este partido com apenas três membros conhecidos publicamente propõe diversas alterações a leis vigentes e instituir nova legislação, dos quais passo a evidenciar temas como a Sexualidade e os Direitos dos Animais. Certo, a Holanda é tida como um país liberal, mas vamos ver os extremos a que me refiro.

O PNVD procura baixar a idade permitida para o início da vida sexual para os doze anos, e a longo prazo, eliminar por completo, excepto relacionamentos dependentes ou intrafamiliares. E restringir as punições às relações "coercivas" ou "perigosas". A idade para poder participar em pornografia seria também baixada para a idade do início da vida sexual. A prostituição ser legalizada aos 16 anos. A pornografia infantil privada ser legal, e a pornografia não-violenta ser exibida em horário diurno nos canais televisivos. Exigem ainda a separação dos criminosos sexuais, para que estes não sejam alvo de "tortura indirecta".

Quanto aos Direitos dos animais, o PNVD ambiciona estabelecer um tratado universal que garanta os direitos básicos dos animais. Planeia também restringir os testes em animais e proibir completamente o consumo de carne e peixe. Na sua visão, matar animais, independentemente do objectivo a que se destina, é considerado assassínio. Caça e pesca desportivas seriam banidas, e as empresas envolvidas na indústria alimentar de carne e peixe seriam apoiadas pelo estado.

O uso de drogas deveria, segundo o partido, ser completamente descriminalizado e legalizado. Drogas duras, só a partir dos 16, claro! Drogas leves, sexo, direito de voto, jogos a dinheiro e escolha de morada a partir dos 12. O casamento deixa de estar previsto na lei, mas a nudez pública passa a ser permitida em qualquer parte. Ainda, viajar de combóio gratuitamente.

Não consigo deixar de pensar nas "listas" dos alunos no secundário, e dos seus panfletos e propostas para candidatura a associação de estudantes: "propomos: elevadores para os alunos e andaimes para os professores!", enfim, coisas com alguma graça. Mas isto é grave. Numa primeira análise julgo haver uma ideia básica neste partido, e uma tentativa de conseguir poder através de várias ideias paralelas e eleitoralistas.

Dissecando:

- A pedofilia legal e instituída, mascarada de luta pelos direitos das crianças.

adeptos: pedófilos, e um ou outro "liberal" sem filhos ou família.

- Os Direitos dos Animais.

adeptos: Vegetarianos e extremistas utópicos e distraídos.

- Livre uso de drogas.

adeptos: consumidores, liberalistas, anarquistas.

Agora os membros conhecidos do partido, para chegar talvez a uma conclusão definitiva.

- Marthijn Uittenbogaard, ex-tesoureiro da organização a favor do relacionamento sexual adulto-criança Vereniging MARTIJN, e cujos fundadores TODOS foram identificados como pedófilos.

- Van den Berg, condenado em 87 (na altura tinha 43 anos) por molestar um rapaz de 11 anos.

- Norbert De Jonge, expulso do curso de pedagogia devido ao envolvimento no partido, está identificado como pedófilo.

Algum deles está identificado como lutador/protestante dos direitos dos animais? Será sequer algum deles vegetariano? E consumidor de droga? Ou conhecido do público por altruísmo, por feitos ou estudos ou passado político? Um partido que oculta sua sede, uma moradia, para que não sejam alvo de ataques, cujos membros não se revelam…

Qual a finalidade deste partido? Chegámos ao cúmulo em que os políticos, em vez de se aproveitarem do partido e protegerem os interesses próprios através dele, criam um partido em função apenas dos seus interesses mais sórdidos?

Disseram-me, e só agora alcanço verdadeiramente o porquê, que nem tudo diz respeito ao povo, o povo não é digno de votar em tudo. Há coisas que se devem decidir. Elegemos pessoas em quem pensamos poder confiar o nosso futuro. Se são competentes, há decisões internas que devem tomar por nós. Uma delas é perceber as intenções bem claras de um partido e anulá-lo. O Homem é superior à Lei e aos Regulamentos e Constituições. Nós não nos regemos por Leis somente. Em primeiro lugar regemo-nos por nós.

E pensamos por nós. Haja humanidade!

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Homem-em-série

imagem:"Identity" de Maroe Susti

"Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio;

cada ser humano é uma parte do continente,

uma parte de um todo"

John Donne


O ser humano surpreende-me. Uma e outra vez. A Sociedade condiciona-nos continuamente, adquirimos ou alteramos comportamentos, pela necessidade de integração, pela "normalidade", para sermos humanos de série funcionando em cadeia, e não protótipos funcionais, autónomos e únicos. Ainda assim o espírito rebelde e persistente que nos habita grita para sermos únicos. E é uma parte de mim que acorda quando encontro alguém que chega, depois de uma ausência de alguns meses, e pergunta directo, interessado genuinamente, e te questiona assuntos pessoais teus, sem tabus, na frente dos outros, ligando um pequeno grupo na amizade e na intimidade sanguínea, nivelando-nos à carne  e à pureza de sentimento na preocupação verdadeira por quem te é querido e pelo seu bem-estar como parte importante no bem-estar geral. 

Se esta preocupação e esta frontalidade fossem comuns, talvez novos horizontes se abrissem à humanidade.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

"A grandeza de uma nação e o seu progresso moral podem ser medidos pela forma como trata os seus animais" - M Gandhi


É ao deparar-me com mais um apelo chocante para que não coma carne que sou confrontado com esta realidade: o homem-comum industrializou a vida. Os seres vivos são para o homem-comum apenas mais um bem, a utilizar a seu bel-prazer, quer seja como matéria prima, quer seja como produto directo, artigo de desporto, prazer, luxo, escravo, brinquedo ou simplesmente companhia descartável. É o gado para abate tratado como balões numa mangueira de ar, a encher depressa para se tirar, a galinha poedeira expremida como borbulhas de um adolescente, o cão treinado a cúmulo para combate, e que se abandona quando perde ou está ferido, é a tartaruga, a arara, o melro, a aranha, o peixe e o réptil que se tem num aquário ou gaiola ou jaula condenado à perpétua, as incontáveis colecções de insectos, cada qual com direito ao seu alfinete, o animal caçado até à extinção, porque um qualquer tipo gosta de ter a cabeça como "troféu", quando a luta, se se travou, foi entre a bala e o animal, ele estava cobardemente escondido atrás da arma...
E digo industrializou por isto: por processos básicos de cadeia de produção, a matéria prima-vida é destratada, alterada, triturada, revirada, violentada e retirada de qualquer propriedade, entidade-ser e valor, para lhe ser dado um rótulo, uma embalagem, um preço, e servir ao homem-comum como combustível. Povos chamados "primitivos" onde eu chamaria sem qualquer dúvida Puros e Vivos têm outra consciência - pedem à Natureza perdão pela morte que vão tirar ao seu irmão-veado, à sua irmã-corça, e que é para sua alimentação, e da sua família, e naturalmente respeitam a morte e aproveitam tudo no ser, seja para alimentação, vestuário, ou o que seja de seu proveito e utilidade. Não, não digo "vamos abraçar as galinhas e pedir desculpa", digo "vamos tratar os animais com respeito pela vida, fazer uma alimentação saudável, com carne em proporções saudáveis, vinda de animais saudáveis, criados condignamente em condições saudáveis, com uma alimentação saudável". No fundo, na consciência que resta, mas que existe em todos, sabemos o sentido de tudo isto. E sabemos que tudo se reflete.

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Grande Espírito, cuja voz ouço nos ventos
cujo sopro dá vida ao mundo todo
venho perante ti como um dos teus muitos filhos.
Sou pequeno e fraco.
Necessito a tua força e a tua sabedoria.
Deixa-me caminhar na beleza.
Permite que os meus olhos para sempre contemplem o pôr-do-sol vermelho e púrpura
Faz as minhas mãos respeitar as coisas que criaste
Torna os meus ouvidos atentos para que possa ouvir a tua voz
Faz-me sábio para que possa aprender as coisas que ensinaste ao meu povo
Escondeste as lições em cada folha e em cada pedra.
Procuro força.
Não para ser superior aos meus irmãos
mas para ser capaz de combater o meu maior inimigo - eu próprio.
Faz-me sempre capaz de me encontrar contigo de mãos limpas, cabeça erguida e coração puro
para que quando a vida se desvanecer como o pôr-do-sol
o meu espírito possa juntar-se a ti sem vergonha.

(velha oração índia)

(imagem: myspace de Jeannie)

quinta-feira, 26 de junho de 2008

A guerra dos outros


Conflito de interesses de poder, falaram-me noutro dia do drama do homem-povo deste país, na guerra do ultramar. Do homem da terra, do homem do mar, do homem da serra e do homem da cidade, do homem que vivia no país pobre, do homem-povo esquecido que salvavam da guerra lá fora, para ter de lutar a terra para não morrer de fome cá, ainda que orgulhosamente só. Do homem-povo chamado para lutar cá dentro, mas lá fora, no ultramar, num clima que não conhece, com e contra um povo que não conhece, pegando em armas quando as suas mãos só conhecem a forma da enxada, do arado, da rede de pesca, matando gente, aprendendo a odiar, quando a sua luta era manter-se vivo e aos seus. Lutou a guerra dos outros, quando mais ninguém lutou a dele. Foi bala disparada pelos outros, quando ninguém mais pegou na sua enxada.

Voltou mudado, com medo e nojo no estômago, e raiva e ódio nos olhos e no sangue, com revolta e desprezo na face, sem conhecer quem lhe antes era querido. Voltou desprovido de amor, desligado de tudo, incapaz de se adaptar depois de ter estado na trincheira com a sua família, com os seus irmãos, capazes de dar a vida, de se atirar sobre uma granada e morrer, para que esta não ferisse os restantes, chegar e ser desprezado, por ter lutado a sua guerra deles.

Talvez porque o homem-povo que lutou a guerra que não era sua ser feito de silêncio e vazio num corpo que já não tem lugar porque se fez de guerra e a guerra já não é, talvez por isso o homem-povo só viverá quando nós filhos e netos viermos à luz falar dos abraços que o homem-povo não nos deu, porque já não os sabia dar.

Dedicado ao meu pai e ao teu.
(imagem: globoonliners.com.br)

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Eppur si muove


"No entanto ela move-se" (G. Galilei)
É verdade que se move a Terra. Apesar de todos os contras, de toda a opinião contrária vigente durante muitos séculos. É também redonda. Os gregos sabiam-no, Eratóstenes (276 - 195 a.C.) mediu com alguma precisão o perímetro da sua circunferência máxima.
Mas os Homens esquecem factos no seu proveito. Políticas e Religiões (por vezes sem distinção) moldam os factos e a história para que todos dancem a sua dança. Todo o Homem o faz, na generalidade. É da nossa natureza convencer o próximo, levá-lo a aceitar-nos. Por Maslow, podemos inferir a razão pela qual o homem, numa situação de poder, procura a conquista de mais poder, sempre e cada vez mais poder. Daí a terra ter ficado plana até à idade média, enquanto o sol andava sorridente a passear os céus. Porque se eu disser que o mar é branco, e torturar e matar quem disser que é azul, todos vão concordar que é branco. E eu serei superior a eles, porque eu disse, e eles, contra si mesmos, concordaram.
Transpondo para os nossos dias: se fundamentalistas islâmicos ameaçam cartoonistas, devem estes últimos retraír-se? Se há o mesmo ou até mais petróleo a ser extraído diariamente, deve a expeculação dominar, e todos permitirmos? (e quanto a especulação, que domina os mercados neste momento, não vou adicionar mais para já) E nós, aqui neste país, Portugal, que nos deixamos enganar de forma ainda mais básica que os antigos romanos, que nesta política de "pão e circo" só nos dão o circo, e ainda esse o pagamos e bem pago: refiro-me ao futebol, por maior exemplo! O país em sérias dificuldades, a alimentação sobe, os combustíveis e energia sobem, a água sobe, os impostos pesadíssimos, e o povo a correr com bandeirinhas, a buzinar com bandeirinhas, a cantar o hino com a cerveja na mão, com um patriotismo futebolístico e hipócrita, mas feliz da vida, porque se por um lado "cá vamos indo, como Deus quer", por outro "Sou português! Vejo os jogos todos e Portugal vai ganhar! Somos os maiores!"...
É no meio deste circo que me vejo, no meio de um povo de olhos vendados por jogos de futebol e outras brincadeiras, de um povo que se habituou sempre a não ter o que quer, e encarar isso como normal e que "é a vida", e com isso, a não querer mais, a não querer melhor. Um povo que referenda leis do aborto por duas vezes, não é esclarecido em nenhuma delas, a facção vencedora no primeiro não faz nada do que se tinha proposto, no segundo o povo mantém a opinião e o resultado, e o governo, mostrando que o referendo não foi mais que uma distracção, mantém a sua ideia original e segue em frente com a lei! (não digo com isto que concordo ou discordo com essa lei, isso será para outro artigo) Resumindo, esqueceu-se a polémica da Casa Pia num instante, onde estavam implicados vários membros do governo, trataram-se OTAs e TGVs e Portagens... e o povo de volta do referendo, com a falsa moralidade e o falso humanismo a degladiarem-se brutalmente! Depois, como o Aeroporto da OTA não conseguia vingar (afinal, veio-se a descobrir que era um pântano...) o Governo aproveita para chamar a atenção do país inteiro para o assunto, e todos se embrulham em OTAs e TGVs porque é polémico, enquanto o governo fecha Urgências e Escolas e dá cabo do Ensino e da Saúde. Ora o povo distraído a comentar aviões e combóios, quando afinal todos andam no seu carro, mas acha que um TGV é demasiado para nós, então o governo vem, acaba com as opiniões e decide. E retalha-se o país para mais uma linha, e abre-se mais um aeroporto, e faz-se mais uma ponte no Tejo, assim como se fizeram 10 estádios de futebol, assim como se faz uma A29 paralela a uma A1, separadas em alguns sítios por umas centenas de metros, e se fazem obras e obras e construções e tudo num país desempregado, onde reina o subsídio para quem não produz, onde o jovem no desemprego recebe mais que o idoso com 50 anos de trabalho, onde não há dinheiro para pagar tanto crédito, mas os bancos sobem taxas e apresentam lucros que insultam quem realmente produz, onde há excesso de habitação, mas a construção permanece em alta e os preços não baixam. Onde o interior é a casa dos tios lá na terra, porque viver só se pode no litoral. É o país que tem o Engenheiro que é primeiro, mas não é engenheiro, mas afinal assinou trabalhos, mas afinal ninguém soma 2+2 se ele não é engenheiro afinal que trabalhos é que assinou, mas afinal se não é engenheiro porque é que não se retracta, porque é que não ganha vergonha, porque é que não ganhamos nós vergonha nele, o primeiro, que discute como um puto mimado no pré-escolar "não sou eu, tu é que és! não fui eu, tu é que fizeste!", um governo que cala a comunicação social, que é tão acutilante para umas coisas, e para o que interessa ao governo e nos deveria interessar acima de tudo, se cala! Não se chegou a lado nenhum com o caso Casa Pia, com a Universidade que assina o canudo do engenheiro primeiro, com tantos assuntos delicados para alguns e nada respira! Vem um jornalista, lança luz no caso, e o povo exalta-se até ao próximo jogo de futebol, ou até o próximo destaque dos reforços dos bombeiros (que afinal estranhamente nunca chegam nem são eficazes, porque o contrato tem esta ou aquela cláusula), ou fecha-se algures uma urgência ou o fisco vai arranjar forma de deitar abaixo uma empresa para que os olhos se voltem todos noutra direcção. E por trás, cala-se o jornalista.
E cá está reposta a paz, "como deus permite", um dia de cada vez, e sim, senhor, o mar é branco, a terra é plana... então se fosse redonda, quem estivesse lá em baixo caía, não é?
(imagem: desconhecido)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

"No princípio, era o Verbo"


Não, isto não será decerto um blog com uma mensagem cristã, apesar de ter sido essa a minha educação. Cito o Génesis, porque este é, de facto, o princípio deste Blog, o Verbo, mas a palavra, a mensagem. Porque, até ver, é apenas isso que nos diferencia dos restantes seres vivos. E é na comunicação que vou tentar clarear aspectos do que me atribula. O mote será a busca de receptores, e da sua opinião, na perspectiva que não somos isolados, mas que não temos de ser iguais, e calcando o caminho dos outros não vais a outro lado que não onde os outros foram. Bem haja quem vier por bem.
(imagem: Nascer de um novo Homem, Dali)