Passei algum tempo em que me fechei. Em que me isolei. Contactava socialmente no emprego, e essa era a minha única ligação. De qualquer forma, ausente de confianças, e formal. E distanciei-me o suficiente para sentir quem sou. E rio-me quando ouço alguém dizer que sabe o que quer, que sabe onde está, que sabe quem é. Eu não sei. Porque quem sou não sei dizer. Porque se digo que sou ninguém, isso significa que não encaixo nos nomes e adjectivos que conheço, que descrevem algo limitado, e eu ainda não encontrei os meus limites e definições. E onde estou? Estou onde os meus passos me trouxeram, e não soube, ou não quis, ou simplesmente não escolhi dar outros. Mas os passos foram sempre os meus. E o que quero? Não sei. Sinto os dias. Porque já quis muito, já fiz muitos planos. E não controlo os dias, não controlo nada mais que os meus passos e as minhas decisões. Não deixo, de uma forma mais ou menos consciente, de planear, de projectar, de procurar. E porque temos o que queremos, preciso perceber o que realmente quero. E paro, frequentemente, e tento sentir o que de verdade desejo. Porque é fácil cair no conhecido, no generalista, nos desejos dos outros, nos desejos comuns. E quando se está, como estive, isolado, acompanhado de mim, lidando só comigo, sem fuga, todos os desejos externos se desfazem, se não procurarmos neles o alívio para a solidão. Se abraçarmos a solidão, temos todo o tempo com o nosso íntimo. E percebemos que viver em sociedade custa-nos a identidade. E ter a consciência disso pesa-me e em cada segundo que me deixo parar e invejar algo ou alguém, ou querer ser ou ter ou estar, irrito-me e zango-me comigo, porque é tudo falso. É tudo uma fuga para facilitar o meu dia.
No fim de contas, tudo exterior a ti é uma limitação. Mas dança conforme a música, se é isso que te dá conforto.