segunda-feira, 16 de março de 2009

E o que foi não volta a ser


imagem: Autor não identificado.

Custa-me. Na semana que passou, umas quantas tragédias familiares. Morreram crianças pequenas, crianças que deveriam estar à guarda dos adultos. E morreram por nossa culpa. Não é culpa dos pais, é nossa.
As crianças não são responsabilidade dos pais. As crianças são responsabilidade da sociedade. Não foi um pai que se esqueceu do bebé no carro ao sol, nem um pai ou uma mãe que deixaram a criança ser puxada pelo mar, nem os irmãos que deixaram o pequenito sozinho e ele caiu ao poço aberto do vizinho. Somos todos nós que nos desresponsabilizamos da educação das nossas crianças, que faltamos ao apoio que precisam, que as formatamos e condicionamos num sistema que nos dê o menor trabalho possível. Se perguntar a 10 portugueses de quem é a responsabilidade da educação dos filhos, surpreender-se-á com a percentagem que responderá "é do professor!". E isso é notório, quando cada vez mais sabemos de casos de pais e tios e primos que vão à escola pedir satisfações à força por castigo ou aquela nota má que deram "ao seu menino" - Nota de louvor a uma Associação de Pais de uma escola de Braga, que defendeu o professor do pai de um aluno, dizendo que este apenas "enxotou as moscas" ao rapaz, quando o pai diz que o menino levou um cachaço que até ia perdendo os sentidos, e até o levou ao Hospital para o examinarem!
Somos irresponsáveis. Trabalhamos de sol a sol, chegamos a casa cansados, não temos paciência nem vontade para chegar a casa e ainda ter de ajudar o miúdo nos estudos. Ou perguntar-lhe como está. E interessar-se pelo que ele tem a dizer. É tão mais fácil dar-lhe a consola que ele está sempre a pedir, fica tão sossegadinho, tão bem comportado, lá no quarto, para que o barulho do jogo não nos incomode. Precisamos trabalhar. E não vemos que estamos a perder as nossas crianças. Para as termos controladas, colocamo-las em actividades, na música, no desporto, na dança, e depois as notas descem, e vão para o apoio escolar, para as explicações, depois o dinheiro não chega, e temos de trabalhar mais para chegar, e temos menos tempo ainda, e pergunta-se a qualquer pessoa e a criança é uma trabalheira, e deixas de ter vida própria, e tudo muda, e tudo muda, e não tens tempo para ti, para namorar com a tua esposa, para viajar sem compromissos, para umas férias sossegado. E a criança? Que é feito do "crescer saudável, correr e brincar" que deveria ser natural? É apenas um fardo? É apenas um passo normal, como casar, apenas porque todos o fazem? É já algo mecânico? É só para currículo? Não deveria ela ser integrada na nossa vida, ser um indivíduo?
Criticamos os tempos idos, em que não havia dinheiro para nada, em que as crianças começavam a trabalhar para ajudar os pais logo cedo, em que as famílias não tinham tempo para carinhos, não havia educação, os miúdos eram tratados como força de trabalho, levavam uns sopapos ou pior quando rompiam as calças a brincar, ou perdiam os botões da camisa, porque os arrancavam para jogar ao botão. Criticamos, como criticamos tudo, e não vemos que fazemos o mesmo, e também o oposto. Temos o mesmo desapego, porque não lhes ligamos, porque também temos tantas ou mais preocupações que os nosso avós (o que é nosso é sempre maior, achamos nós). Mas empurramos a responsabilidade para os outros, os professores, as educadoras, coisa que era impensável noutros tempos. Não os conhecemos, eles não nos conhecem. Explicamos as coisas da maneira mais simples, e dessa maneira os ensinamos a ser "espertos", a contornar "essa sociedade danada em que vivemos". Mas afinal não somos nós essa sociedade? Se é danada, não seremos nós os responsáveis, e não nos caberá a nós mudá-la? Coisas básicas como o respeito: antigamente a voz do pai trovejava pela casa, e fujam que ele vem de cinto na mão. "Educações" violentas eram comuns, infelizmente. Por outro lado, um professor era um mestre, a educação era um privilégio. Podia também ser um verdugo. Eram outros tempos. Não justifica, mas enquadra. Hoje em dia, como pedagogicamente não se fala em papões, come a sopa senão o Sr. Polícia vem-te buscar. E temos a imagem má da figura primeira de autoridade inculcada desde o berço. Depois vêm os professores, e começa-se com "o meu menino sabe muito, sabe mais que o professor, imagina que aconteceu isto bláblá" (uma desatenção do professor, um caso fora do contexto ou mal contado), e passado pouco tempo o miúdo, que nunca estou com ele porque ou estou a trabalhar ou ele está no quarto, vem e diz que o professor o espancou. E eu, para mostrar que sou um pai atento e presente, pego no menino pela mão e vou tirar satisfações ao professor, porque o miúdo é tão bem comportado, nem sai do quarto, coitadinho, na escola nem devem haver outros assim, e tem de ter toda a razão e o professor é um carrasco, um selvagem, e deve ser banido, acorrentado, chicoteado por traumatizar assim o meu anjinho!
E somos todos esta sociedade. E todos permitimos isto. E cada criança que cresce assim é uma perda. E cada criança que morre porque a sociedade está toda a trabalhar, nos pesa nos ombros. Não é no pai que está a culpa. Não é na mãe ou nos irmãos. É em nós. Em nós que trabalhamos. Em nós que só vemos o trabalho. Em nós que só nos vemos.

1 comentário:

Unknown disse...

Por muito que custe...tenho de concordar com esta, digamos, tese. Sim, também sou pai e sei bem o quanto custa por vezes...
Um abraço ao autor!