terça-feira, 16 de junho de 2009

Os Três Mundos

Há o meu mundo, há o mundo em que vivemos, e há o mundo que deve ser. Penso que devo aproximar o meu mundo ao mundo que deve ser, e não ao mundo em que vivemos. E todo o ser humano sabe no seu íntimo como é que o mundo deve ser, e espantar-se-ia se visse que esse mundo é idêntico para todos os seres. Será sempre uma questão de não "ir com a corrente" do mundo em que vivemos. O facto de dominarmos o mundo em que vivemos apenas significa que ele e o nosso mundo são muitos semelhantes. Isso significará um sentimento de realização sempre mais oco, porque obriga a ignorar o mundo que deve ser. Não me alongo. Apenas deixo este pensamento.

segunda-feira, 16 de março de 2009

E o que foi não volta a ser


imagem: Autor não identificado.

Custa-me. Na semana que passou, umas quantas tragédias familiares. Morreram crianças pequenas, crianças que deveriam estar à guarda dos adultos. E morreram por nossa culpa. Não é culpa dos pais, é nossa.
As crianças não são responsabilidade dos pais. As crianças são responsabilidade da sociedade. Não foi um pai que se esqueceu do bebé no carro ao sol, nem um pai ou uma mãe que deixaram a criança ser puxada pelo mar, nem os irmãos que deixaram o pequenito sozinho e ele caiu ao poço aberto do vizinho. Somos todos nós que nos desresponsabilizamos da educação das nossas crianças, que faltamos ao apoio que precisam, que as formatamos e condicionamos num sistema que nos dê o menor trabalho possível. Se perguntar a 10 portugueses de quem é a responsabilidade da educação dos filhos, surpreender-se-á com a percentagem que responderá "é do professor!". E isso é notório, quando cada vez mais sabemos de casos de pais e tios e primos que vão à escola pedir satisfações à força por castigo ou aquela nota má que deram "ao seu menino" - Nota de louvor a uma Associação de Pais de uma escola de Braga, que defendeu o professor do pai de um aluno, dizendo que este apenas "enxotou as moscas" ao rapaz, quando o pai diz que o menino levou um cachaço que até ia perdendo os sentidos, e até o levou ao Hospital para o examinarem!
Somos irresponsáveis. Trabalhamos de sol a sol, chegamos a casa cansados, não temos paciência nem vontade para chegar a casa e ainda ter de ajudar o miúdo nos estudos. Ou perguntar-lhe como está. E interessar-se pelo que ele tem a dizer. É tão mais fácil dar-lhe a consola que ele está sempre a pedir, fica tão sossegadinho, tão bem comportado, lá no quarto, para que o barulho do jogo não nos incomode. Precisamos trabalhar. E não vemos que estamos a perder as nossas crianças. Para as termos controladas, colocamo-las em actividades, na música, no desporto, na dança, e depois as notas descem, e vão para o apoio escolar, para as explicações, depois o dinheiro não chega, e temos de trabalhar mais para chegar, e temos menos tempo ainda, e pergunta-se a qualquer pessoa e a criança é uma trabalheira, e deixas de ter vida própria, e tudo muda, e tudo muda, e não tens tempo para ti, para namorar com a tua esposa, para viajar sem compromissos, para umas férias sossegado. E a criança? Que é feito do "crescer saudável, correr e brincar" que deveria ser natural? É apenas um fardo? É apenas um passo normal, como casar, apenas porque todos o fazem? É já algo mecânico? É só para currículo? Não deveria ela ser integrada na nossa vida, ser um indivíduo?
Criticamos os tempos idos, em que não havia dinheiro para nada, em que as crianças começavam a trabalhar para ajudar os pais logo cedo, em que as famílias não tinham tempo para carinhos, não havia educação, os miúdos eram tratados como força de trabalho, levavam uns sopapos ou pior quando rompiam as calças a brincar, ou perdiam os botões da camisa, porque os arrancavam para jogar ao botão. Criticamos, como criticamos tudo, e não vemos que fazemos o mesmo, e também o oposto. Temos o mesmo desapego, porque não lhes ligamos, porque também temos tantas ou mais preocupações que os nosso avós (o que é nosso é sempre maior, achamos nós). Mas empurramos a responsabilidade para os outros, os professores, as educadoras, coisa que era impensável noutros tempos. Não os conhecemos, eles não nos conhecem. Explicamos as coisas da maneira mais simples, e dessa maneira os ensinamos a ser "espertos", a contornar "essa sociedade danada em que vivemos". Mas afinal não somos nós essa sociedade? Se é danada, não seremos nós os responsáveis, e não nos caberá a nós mudá-la? Coisas básicas como o respeito: antigamente a voz do pai trovejava pela casa, e fujam que ele vem de cinto na mão. "Educações" violentas eram comuns, infelizmente. Por outro lado, um professor era um mestre, a educação era um privilégio. Podia também ser um verdugo. Eram outros tempos. Não justifica, mas enquadra. Hoje em dia, como pedagogicamente não se fala em papões, come a sopa senão o Sr. Polícia vem-te buscar. E temos a imagem má da figura primeira de autoridade inculcada desde o berço. Depois vêm os professores, e começa-se com "o meu menino sabe muito, sabe mais que o professor, imagina que aconteceu isto bláblá" (uma desatenção do professor, um caso fora do contexto ou mal contado), e passado pouco tempo o miúdo, que nunca estou com ele porque ou estou a trabalhar ou ele está no quarto, vem e diz que o professor o espancou. E eu, para mostrar que sou um pai atento e presente, pego no menino pela mão e vou tirar satisfações ao professor, porque o miúdo é tão bem comportado, nem sai do quarto, coitadinho, na escola nem devem haver outros assim, e tem de ter toda a razão e o professor é um carrasco, um selvagem, e deve ser banido, acorrentado, chicoteado por traumatizar assim o meu anjinho!
E somos todos esta sociedade. E todos permitimos isto. E cada criança que cresce assim é uma perda. E cada criança que morre porque a sociedade está toda a trabalhar, nos pesa nos ombros. Não é no pai que está a culpa. Não é na mãe ou nos irmãos. É em nós. Em nós que trabalhamos. Em nós que só vemos o trabalho. Em nós que só nos vemos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Rompendo diques

Rompendo diques, abanando as árvores, como queiram. Interessa interromper os caminhos normais, cansar-vos, fazendo-vos pensar. Uma tradução seguir-se-à logo que tenha oportunidade.

Vejam um lado:
http://www.twoorthree.net/2008/12/101-christian-q.html
e o outro:
http://atheistblogger.com/2008/02/15/101-atheist-quotes/

Boas reflexões.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Permanência da Morte


(imagem: Tony Hamilton)

     Tudo já foi dito acerca da morte: que há vida para além desta, que ressuscitamos, que reincarnamos, que vamos para o Céu ou para o Inferno ou para o Purgatório, para o Nirvana, para outra dimensão, para viver junto dos Extraterrestres que nos pariram, e há quem diga que acaba tudo nesta. Ora vamos ver esta última, que será até a menos referida por ser a mais desagradável. Há poucas certezas tão certas como a morte. Morremos. Ponto final. Cessamos, e cessa tudo o que conhecemos, como conhecemos. Isto levanta uma série de questões e preocupações a nós, aparentemente os únicos seres racionais no planeta. É provável, uma vez que a nossa noção de razão é mesmo isso: nossa. Mas resolvemos muito bem a questão da morte: não se fala disso! Ou então criamos crenças que desafiam esse final, e damos o assunto como resolvido, não se fala mais nisso, tratemos de vida! Mas só até ao próximo funeral. Aí todos somos lembrados de algo mais, algo que está acima das nossas crenças. A tristeza e melancolia no acto confronta-nos com a realidade que não queremos. E aliviamos a pressão, através de rituais, para tornar esse confronto em algo dramático e artístico, que reforce a crença na existência de um depois. 
     Será esse o custo de ser racional? Não conseguimos encarar a hipótese de sermos apenas como um caracol, ou um pardal, ou um pinheiro, que vive a sua vida, o tempo médio da sua espécie, e morre, apenas? E se é esta a realidade, por que motivo evoluiu o homem de forma diferente, e desenvolveu consciência? Desenvolveu cultura? É nisto que reside a minha dúvida. Se por um lado somos o ser vivo fisiológico, com princípio e fim, nascimento e morte, por outro lado somos diferentes, pensamos e criamos, tudo numa dimensão estudada, mas não fisicamente provada. Certo, já mapearam as áreas do cérebro responsáveis pela imaginação, pela criatividade, pela emoção. Mas porque as temos, e tantos animais não? De que forma específica é isso necessário, e é isso resultado da evolução? E de que maneira é que isso influencia a nossa vida, as nossas necessidades básicas de sobrevivência, nos faz necessariamente diferentes? Há algum motivo ou propósito em sermos diferentes? Significa isso realmente que há algo mais? Que não acaba aqui, da mesma forma que um grilo ou uma alface? 
     Não defino. Ninguém está certo, ou todos estão certos. Mas quando eu morrer, logo vejo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A Enxertia

(foto: AGARYCK)

     Nesta atmosfera que vivemos em que tanto se fala em Educação, nos Professores, no Ensino Público, tenho ouvido diversas opiniões mais profundas acerca do desenvolvimento das nossas crianças, e da sociedade como resultado.
     Há todo o tipo de correntes e ideologias acerca de como educar/criar uma criança (não faço distinção). Há quem defenda que deve ser criada com todo o carinho e mimo. Deve ser protegida do mundo porque "tem tempo de aprender a crueldade lá fora". Há quem exponha e prepare para a dureza da vida, sem cedências. Há os meios termos. Há os desajustados. Há os irresponsáveis. Há os rígidos. Há-os de todas as cores. Mas todos eles, ou a grande maioria, segue aproximadamente os costumes da sua sociedade. Os chamados "civilizados" adoptaram a fórmula escolar, com diversos graus de ensino, orientados para uma profissionalização organizada e estruturada de acordo com o seu mundo do trabalho. Os povos isolados ou socialmente distintos, na sua grande maioria seguem outro percurso, com outras prioridades. As suas crianças crescem aprendendo com os adultos como suprir as suas necessidades, assim como a cultura, rituais e normas de vida social do seu povo. 
     É por esta altura que surge a minha inquietação. Qual é o caminho dos povos? A estandardização do ensino eliminará por certo muita da diversidade natural do ser humano, pois se todos trilharmos o mesmo caminho, que será dos caminhos abandonados, e onde levariam? Por outro lado, essa consolidação do conhecimento permite que se avance, em vez de estarmos todos sempre a partir do zero em cada matéria. Mas é limitador. Aprendemos com algumas religiões que há algo que nos domina e que tem poder sobre nós. Mas todas elas pedem fé, e fé é acreditar em algo apenas porque se quer acreditar. Por outro lado aprendemos com a ciência que tudo o que existe pode ser provado. Isso fecha-nos os olhos a muita coisa apenas porque ainda não se provou. A terra era plana até alguém provar o contrário. E só quando conseguiram provar uma e outra e outra vez até não haver dúvidas, se aceitou a "teoria". Mas ainda hoje há quem não acredite. O que não vemos não existe. Mas afinal sem luz não vemos nada. E o que é a luz? E o que é a energia? E se a energia existe, não se vê? Então como é que ouvimos rádio, ou falamos ao telemóvel? Alguém duvida das ondas rádio? Mas alguém as viu? E ninguém duvida, apenas porque um ponteiro num aparelhinho diz que existe? E se existissem mas não tivessem inventado o aparelho que mede essas ondas? Iríamos crer que era bruxaria?
     Isto tudo para dizer que estamos viciados. Cada um de nós não é mais que uma nova enxertia num ramo já gasto, e que cresce pouco, mais um pouco, muito pouco. A Árvore já está grande, enorme, pesada, e os seus frutos sem sumo, sem doçura. A minha questão é: devemos persistir na árvore, amparar-lhe os ramos, fazê-la reviver e renovar-se, ou devemos procurar nova semente, novas árvores, novas maneiras de florescer como humanidade? É que esta árvore está a morrer, há uma seiva gasta que percorre a casca e infecta cada nova enxertia.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Teatro


(imagem: www.ccbeunet.br)

       Uma nova experiência, uma nova arte: o Teatro! E que experiência! Irrepetível! Um grupo de pessoas, heterogéneo em idades, credos, profissões e personalidades, todas dispostas (talvez não todas de início, mas essas motivaram-se) a dar o seu melhor, a seguir cegamente as directivas dadas pelos formadores, sem questionar, sem imaginar muitas vezes o resultado dos exercícios. E que exercícios, alguns pesados fisicamente, alguns com uma força emocional muito grande, todo o grupo de formandos se entregou nas mãos de algumas pessoas muito especiais, que nos abriram os sentidos para uma nova realidade. Muito obrigado, Formadores, pela entrega, pela dádiva, pelo empenho.

       As pessoas mudam. Eu mudo. Mudo e não me enquadro, e isso deixou de me preocupar. Porque esta formação fez-me perceber muita coisa acerca de mim e dos outros. Conheço-me mais e melhor, agora. E quanto aos outros, houve os que me tentaram ridicularizar, para pelo menos aparecer na peça final e ver o resultado da formação. Pareceu-me gostar, no fim de contas. Houve quem viesse de longe, para ver, apenas porque eu convidei, apenas por saberem que era importante para mim. Houve quem não viesse, pessoas próximas, amigos próximos, pelos seus motivos, talvez. Não disseram sequer. Não perguntaram sequer. Não posso criticar. Não sabiam, penso, a importância que teve para mim. Houve sim, quem fosse uma presença constante em quase todos os espectáculos, e soube bem, e confortou ter uma cara amiga na plateia, fosse para aplaudir, fosse para melhor criticar e comparar. Obrigado, muito obrigado a quem foi.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ensino: resultado fácil no imediato, hipotecando o futuro

(foto: www.uberreview.com)

Eu não sou professor. Conheço muitos maus professores. Tive muitos maus professores. Mas por princípio, por educação, e por sentido de valor sincero, sempre os respeitei. Distingui os meus professores por classificação ligada ao meu sentimento por eles: Respeito (ok, pelo menos na presença deles, cá fora não podia ver alguns) e admiração (disciplinas favoritas, com bons profissionais). Mas independentemente disso, havia um sentido de autoridade básico: eu estava ali com uma pessoa que sabia coisas que eu não sabia, e eu estava ali para aprender, e ela para ensinar. Ora isso não é uma troca. Eu sou sempre o interessado e essa pessoa é o fornecedor, um fornecedor que recebe, quer entregue a mercadoria, quer não. Ora assim sendo, quando um professor, sem ser obrigado, ainda se preocupa que os alunos aprendam e aprendam bem (e não me refiro às avaliações a que agora estão sujeitos), isso é revelador de um sentido profissional e humano e um aluno só tem a ganhar com professores assim. 
Mas nada disto se passa neste momento. Se há uns anos atrás havia um facilitismo criado por alguns (talvez muitos, talvez poucos, sempre demasiados), isso derivava do respeito que anteriormente se vivia pelos professores e pela rara oportunidade de poder estudar. Passámos para uma época de maior capacidade económica, mais alunos, mais necessidade de alfabetizar o povo, e com a entrada na UE, para tapar os olhos aos outros países, alteraram-se os critérios para passar mais alunos. Erro. A falta de exigência trás sempre bons resultados a curto prazo, e resultados desastrosos a médio e longo prazo. Os professores, com os baixos critérios que lhes eram exigidos, desinteressaram-se. E com as regalias conseguidas, deixaram de trabalhar para ir fazer umas horas à escola. Ouvi coisas do género "Vamos fazer ponte esta 6ª e vamos à serra da Estrela""não posso, tenho 3 turmas, só se meter um artigo...". Ok, todas as profissões metem baixas de tanga, toda a gente faz isso, lá estou eu a culpar os professores. Não é bem assim. Refiro-me a professores que sei que tinham horários de 26-30 horas semanais, alguns menos. Tinham tarefas de direcção de turma, ou do núcleo de física ou de inglês ou etc? Concordo. Isso levava-os às 40 horas? Duvido. A profissão é delicada e stressante? Concordo. Mas tem pausas de hora em hora, e fica-se na maioria das vezes por um máximo de 6 horas ao dia 4 dias por semana. São os licenciados mais mal pagos? Concordo. Se não contabilizarmos essas regalias, os dois meses de férias por ano, mais os 3 dias de descanso semanal, e os dias de 6  horas. Se somarmos isso tudo, percebemos porque de repente ficámos lotadíssimos de professores, tudo quer ser professor. Entendam, isto é só parte da história, há o que têm de aturar, os alunos que vêm de casa por educar, a variação de humor do professor, que ainda assim tem de se adaptar e dar uma aula ainda que tudo lhe esteja a correr mal, o preparar das aulas, dos exames, a correcção dos exames, o dar notas, tudo isso custa aos professores minimamente profissionais, e ocupa tempo extra fora das aulas. Mas sejamos razoáveis: por que razão ficámos inundados de repente com professores?

Isso foi no meu tempo de aluno. Entretanto as coisas mudaram, e neste momento custa-me ver o que se sofre na docência. Por um lado, toda a formação moral deste país descambou. Os pais dão razão aos putos mimados, como dão as consolas e os telemóveis desde o berço, porque não têm tempo. Porque trabalham os dois, ou porque os filhos fazem-se como se faz o casamento, é uma linha de montagem, nasces, estudas, trabalhas, casas, trabalhas, tens filhos, trabalhas, reformas-te e morres (por vezes não é cumprido o penúltimo passo). E porque o tempo de qualidade familiar é ao jantar, com a telenovela ou a bola, tudo vai bem com os miúdos, e se vem uma nota da professora a dizer que o menino passa as aulas a enviar SMS, o pai diz "Então e isso incomoda? Queria que ele telefonasse ou passasse a aula na conversa com os colegas, não?" e não lhe passa pela cabeça que é o facto de o menino não estar a aprender que está em causa, e a professora é que está preocupada! Mas isso é típico, conheço um indivíduo que uma vez disse: "a educação do [meu] rapaz é responsabilidade dos professores, não é minha!" e acredita plenamente nisso! 

E temos o caso noticiado da "gorda peixona", do "Dá-me o telemóvel já!", que todos seguimos com desgosto, como se fosse algo que não acontece todos os dias. É algo que acontece todos os dias! Li uma notícia há pouco que mostra isso, e pior, mostra os pais a acharem-se com tanta razão que levam as coisas a tribunal! Notícia no JN online de hoje, 29 de Outubro de 2008: "Mãe de aluno condenada por agredir professora". Ok, tudo bem, uma história que não me espanta, mas a curiosidade que nos leva a procurar os pormenores levou-me a ler o artigo. Pois em Novembro de 2006, numa reunião que teve lugar na escola, solicitada pela mãe, que não aceitava o arquivamento de um processo instaurado pela docente contra o filho por agressão. A mãe desejava que a professora pedisse desculpa e que admitisse ter sido ela a bater no rapaz e não o contrário. A recusa da professora causou o descambar da reunião (conselho executivo e director de turma presentes) e a mãe a chamar mentirosa à professora. Esta decidiu retirar-se por falta de condições, mas foi impedida pela encarregada de educação, que também a impediu de ligar às autoridades, dando-lhe uma palmada na mão (provavelmente a do telemóvel, digo eu), ao que a docente reagiu empurrando a mãe, que caiu (que o tribunal considerou legítima defesa), e termina o caso com as duas a agarrar os cabelos uma da outra, depois de a professora ter sido agredida à bofetada e ao pontapé (ao verdadeiro estilo peixeirada). A mãe foi condenada, e a Juíza aconselhou-a a pedir desculpa, no mínimo (isto não faz parte da condenação) à professora , por não ter mostrado arrependimento e pelo comportamento destemperado e desrespeitoso a toda a comunidade escolar". 

É a isto que me refiro. Já não há moral, é cultivado o desrespeito e a desautorização, e o ensino vai de rastos. Ser-se professor é, agora, um suplício, com os ministros da educação e os governos a procurar na cartola qualquer milagre que resolva tudo, e agora estamos num ponto em que já nem a curto prazo nada melhora. Se é preciso quebrar o sistema todo, limpar o quadro e começar de novo? É. É preciso perceber as nossas diferenças e procurar noutros países exemplos de sistemas de ensino que se possam adequar à nossa realidade. É preciso criar gosto e valores humanos nas pessoas, talvez principalmente nos adultos, para que estes possam educar as crianças. É preciso mais que futebol e novelas para se ser uma família. E é sobretudo precisa a consciência de ideais, de valores, de agir como exemplo, a começar por cada um de nós, até isso se espelhar num governo, com resultado para todo o país. Não é utópico, não é impossível. Está tudo a um passo de cada vez, numa distância alcançável. Está tudo ali já. Porque a alternativa não é nada agradável, e cada um de nós que não faz nada arrasta-nos para ela.