segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Momento de Viragem

"Tudo a bombordo", grito. E rumo para norte, para a neblina, para o incerto, mas também para o novo, para o por descobrir. Rumo e no rumar está o sentido, e o destino mudará, provavelmente, mas o que passou a importar é a nau, e o caminho que percorre, e o mar em que se encontra. Se esse mar é profundo, se tem correntes perigosas, ventos favoráveis ou contrários, não importa. Importa existir o momento, e a nau. Destino, será venturoso, será uma praia, será um porto seguro, serão os escolhos ou as escarpas de uma qualquer costa perdida, não importa. O mar calmo que percorria, abandonado em desinteresse e paz, também se ficou para trás. Teve o seu propósito. Mas agora, com o casco reparado, com velas novas, é tempo de navegar de novo, agora sim, vivo, de procurar as ondas, de senti-las bater na proa, o vento a fustigar os panos, o cordame a assobiar nas tempestades, a espuma brava e branca a picar forte na face.  Ergo-me renovado e vivo, sinto crescer em mim o Adamastor, com os seus humores de destruição e de admiração, sinto-me percorrido de correntes quentes e frias, amor louco sem fim seguido de solidão desolada, fraternidade real e sincera seguida de ódio quase global, e de regresso ao amor completo. Tudo isso me faz sentir vivo. Confio agora no mar, entrego-me com fé ao seu abraço, deposito nele o meu tesouro, rendo-me ao meu caminho. E é este o meu propósito: navegar. Não mais será chegar. Não será chegar um porto que desconheço. Navego agora. Neste mar que sou, também, eu.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pulsação

Esquece. O que penso saber revela-se uma e outra vez em desacordo com a realidade. O caminho que se abre e é incerto, é bem recebido, mas onde leva, receio saber. Cansa-me caminhar atento, quero caminhar sossegado. Não pretendo que seja um passeio. Mas sempre alerta, sempre a antever o que virá depois da curva, adivinhando pelas sombras que se projectam à distância. E porque não caminhar confiante? Porque afinal o caminho está aí, ficar parado não leva literalmente a lado nenhum. Estúpido e pequeno, da minha parte, assumir saber o caminho para a frente, ou o seu destino. Não se altera o caminho, ou se segue por ele, ou se muda ao escolher nos cruzamentos. Quanto tempo perco eu nos cruzamentos. Quando os antevejo, abrando o passo, e começa a tortura. Preciso resolver isso. E resolver a aceitação, nunca mais pensar "E se tivesse virado à direita lá atrás?", que não adianta, porque o caminho é de um só sentido, não poderei voltar atrás. Gosto de caminhar. Mas estou cansado.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

braçadas contra a corrente

Uma e outra vez, volta e mais outra volta. A vida goza-me à farta. Não traz manuais, não dá explicações. Era bom de vez em quando falar a sério comigo. Eu não danço. Deixo a vida levar-me, mas leva-me ao lado, não me conduz. Decido que vale a pena viver, com todas as surpresas, más e boas. Entendo o desespero, entendo a dor, mas também entendo a alegria e a gratidão. Apetece-me correr, mas caminho apenas. Apetece-me dormir, mas caminho. Ainda assim, sem insistir. Raio de voltas. Porque não percebo? Preciso de paz. A luta já vai longa. Desorientei-me quando perdi todos os exemplos. Quando percebi que só sou eu. Quando afinal todos os exemplos não o eram, são afinal todos maus. Quero uma vida minha. Estou farto de estar sozinho, mesmo quando não estou. Mesmo comigo, ainda estou sozinho. Embora já não tanto. Já vivo comigo em maior diálogo. Ainda assim, a vida troca-me as voltas. De novo. Estava a chegar ao ponto da aceitação, o que precede a paz. E outra volta. Preciso aceitar.
Preciso mudar, também. Quase não dá para respirar. É como descer uma montanha de bicicleta, não dá para parar, dá apenas para travar antes das curvas para não me espatifar. Mas viver é uma adrenalina...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Estranhas Marés

Estranhas marés estas em que me encontro. Alternância entre estados de espírito quase opostos, de desejo de solidão a desespero dentro dela, de desânimo a euforia e volta, de força a desalento, de vontade de caminhar à vontade de desvanecer. Esgota-me este balouçar. Falham-me as palavras boas, quando em tempos me fluíam naturais. Nunca estive tão forte, e no entanto nunca me senti tão impotente. Uma coisa boa, no entanto: nunca estive tão perto de mim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Desalento

Vivemos a época do desalento. Tudo é vazio. Corremos, excitamo-nos com tudo o que podemos fazer, tudo o que podemos ter, tudo o que podemos viver, e tudo é um crescer!... até ao ponto em que percebemos que tudo é vazio. Toda a realização que procuramos é nada. Todo o reconhecimento que, ainda que inconscientemente, buscamos, é fútil. E corremos, excitamo-nos, lutamos mais, e tudo são enormes derrotas que conseguimos em cada vitória. E dei um passo, e corri, e excitei-me, e lutei, e agora que estou a conseguir, percebo que não estarei nem um passo mais à frente de onde comecei. Porque no fim de contas sou só eu. Tu, no fim de contas, serás só tu. E tudo o que lutaste, no fim de contas, serviu para nada. Tudo é uma grande farsa. Vive. É simples.

sábado, 15 de maio de 2010

Rumo ao futuro - mudar mentalidades


O país precisa mudar mentalidades. Tenho esperança. Mas não posso deixar de sentir essa esperança cada vez mais vã ao observar o rumo das coisas. Há já alguns anos que me deparo com uma classe política arredada dos interesses públicos, ou sequer nacionais. Considero algo que ultrapassa o desrespeito, a mais completa ausência de um mínimo de consideração o que é feito como um jogo simples no qual o povo cai permanentemente, e sobretudo nos últimos dez anos, em que jogadas políticas, escândalos e fraudes são permanentemente encapotados com outros mais mediáticos, e subidas de impostos e grandes obras megalómanas anunciadas quase em nota de rodapé entre campeonatos de futebol e a vinda do Papa, recebido com mais honras que um chefe de estado, quando o Dalai Lama é propositadamente ignorado pelos governantes. Não sou contra os líderes religiosos, apenas considero que se somos um Estado laico, devemos receber todos com igual importância, com segurança, mas sem excessos, e muito menos sem o esbanjar de riquezas num momento que se pede de contenção.

Diz o Sr. Primeiro Ministro que é preciso subir o IVA, também nos escalões mais baixos, nos chamados produtos de primeira necessidade, justificando a um jornalista (penso eu estar a descrever correctamente) não ser justo que famílias como a sua própria e a do jornalista paguem também 5% sobre o pão, o leite, a Coca-Cola, porque não lhes é difícil. E a lógica está em aumentar para todos? Cansa-me esta lógica. E cansa-me que alguém com tantos casos "cinzentos" permaneça ao leme deste país, rumando a um futuro próximo muito difícil, e saber que está salvaguardado um bote salva-vidas para uns quantos. É desse bote também que quero falar, foi um email que recebi, sobre alguns desses afortunados (esta palavra tem um sentido muito literal aqui) e dos seus rendimentos mensais, informação que anexo no fim desta missiva.

Voltando ao Sr. Primeiro Ministro, enoja-me a sua situação. Não sei sequer que pessoa é esta, não sei se é engenheiro, não sei se é corrupto, não sei se é educado, não sei se é proprietário, não sei se é manipulador. Sei que as suas poucas medidas acertadas, e a coragem que teve em as assumir, não escondem nem compensam tudo de mal e errado que fez e faz ao país e ao povo português.

Eu quero voltar a acreditar. Mas não quando vejo o primeiro partido da oposição mudar de um líder ausente e deslocado, para um líder sem passado, político de carreira, cujo único trunfo é ser bem-falante. Não acredito quando pessoas inteligentes e de grandes valores se deixam perder em pormenores "menores", quando o que é necessário é uma reforma séria e integral. Não acredito quando temos medidas simples - e sim, são simples! - possíveis e que o governo nem sequer põe na mesa. Mas efectivamente o povo distrai-se com facilidade, e entre futebol, novelas, o Papa, e se metermos um referendozinho polémico ou uma lei que possa dar que falar relativa a valores familiares, mas que no fundo acaba por ser legislado sem respeitar a opinião do povo, então neste caso não posso acreditar que algo vai mudar. É toda uma dispersão da atenção. Há que focalizar, há que fazer o povo acreditar, e focar a atenção no rumo do país, e deixar para trás a imagem de miserabilidade, e de que "estamos aqui à conta de Deus". Se for preciso, tirar o circo, porque o pão, esse, já é pouco, e sem circo podemos talvez acordar.

Estou farto e cansado, mas quero acreditar. Nunca aceitei desgraças, nunca tive medo de trabalhar. Mas não posso aceitar que alguns senhores decidam que eu preciso de um TGV, um aeroporto e uma 3ª travessia sobre o Tejo, quando o que eu preciso é de um serviço de saúde capaz, de um sistema de ensino credível e respeitado, de uma assistência social adequada e bem fiscalizada, de uma função pública proporcionada e adequada, de uma Justiça impoluta, acreditada, funcional, e de serviços de segurança também adequados, com poder efectivo. Se podemos ser melhor que os outros? Penso que sim, mas não vamos inventar a roda. Há modelos correctos e que funcionam noutros países, por que não aprender com eles? Modelos de Saúde, de Educação, de Justiça e Segurança, de Transportes. Neste momento, temos falta de quadros médios qualificados. E temos licenciados a ganhar 600€. Alguns com mestrado, a ganhar mais cento e poucos euros que alguém sem estudos ganha com o ordenado mínimo. Alguém que investiu no seu futuro, e que vê esse investimento pago em pouco mais de 100 euros por mês. Recebi este mail que segue abaixo, cuja veracidade não sei autenticar. Mas não me admira, efectivamente, ser real.

(Início:)

"Salário mensal dos seguintes senhores:

-Mata da Costa: Presidente dos CTT, 200.200 Euros

-Carlos Tavares: CMVM, 245.552 Euros

-Antonio Oliveira Fonseca: Metro do Porto, 96.507 Euros

-Guilhermino Rodrigues: ANA, 133.000 Euros

-Fernanda Meneses: STCP, 58.859 Euros

-José Manuel Rodrigues: Carris 58.865 Euros

-Joaquim Reis: Metro de Lisboa, 66.536 Euros

-Vítor Constâncio: Banco de Portugal, 249.448 Euros (este é que pode pagar mais IRS)

-Luís Pardal: Refer, 66.536 Euros

-Amado da Silva: Anacom, Autoridade Reguladora da Comunicação Social, ex-chefe de gabinete de Sócrates, 224.000 Euros

-Faria de Oliveira: CGD, 371.000 Euros

-Pedro Serra: AdP, 126.686 Euros

-José Plácido Reis: Parpública, 134.197 Euros

-Cardoso dos Reis: CP, 69.110 Euros

-Vítor Santos: ERSE, Entidade Reguladora da Energia, 233.857 Euros

-Fernando Nogueira: ISP, Instituto dos Seguros de Portugal, 247.938 euros (este não é o ex-PSD que se encontra em Angola !! )

-Guilherme Costa: RTP, 250.040 Euros

-Afonso Camões: Lusa, 89.299 Euros

-Fernando Pinto: TAP, 420.000 Euros

-Henrique Granadeiro: PT, 365.000 Euros



E ainda faltam as Estradas de Portugal, EDP, Brisa, Petrogal, todas as outras Observatórios e reguladoras ... Vilanagem É um fartar enfim! E pedem contenção!!

Imaginem o que é pagar um Subsídio de férias ou de Natal a estes senhores:''Tome lá meu caro amigo 350.000 EUR para passar férias ou fazer compras de Natal''.

E pagar-lhes esta reforma ... É no mínimo imoral e no máximo corrupção à sombra da lei ... Até porque estes cargos não são para técnicos, Mas são de nomeação política .. É isto que lhes retira toda e qualquer credibilidade junto do povo e dos quadros técnicos.



TUDO NOSSO DINHEIRO QUE ALIMENTA ESTE BANQUETE, ONDE A CRISE NÃO BATE À
PORTA E Onde há aumentos PARA SEMPRE Amigos"

(fim)

Não alterei o conteúdo nem sou responsável por ele, mas é gritante que, havendo salários destes em empresas públicas, se ouçam mensagens de ser preciso unirmo-nos para ultrapassar a crise, custa a todos, etc., etc. Não custa a todos, não senhor. Esta é a minha indignação. A solução não a tenho, mas tenho algumas ideias. Isto não pode continuar, a frase é velha, mas não o é na minha boca, e espero que não seja na boca de muitos portugueses neste momento. Espero que o não seja na sua também.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Os Três Mundos

Há o meu mundo, há o mundo em que vivemos, e há o mundo que deve ser. Penso que devo aproximar o meu mundo ao mundo que deve ser, e não ao mundo em que vivemos. E todo o ser humano sabe no seu íntimo como é que o mundo deve ser, e espantar-se-ia se visse que esse mundo é idêntico para todos os seres. Será sempre uma questão de não "ir com a corrente" do mundo em que vivemos. O facto de dominarmos o mundo em que vivemos apenas significa que ele e o nosso mundo são muitos semelhantes. Isso significará um sentimento de realização sempre mais oco, porque obriga a ignorar o mundo que deve ser. Não me alongo. Apenas deixo este pensamento.