sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Tradição e Cultura VS ASAE

(foto: marisaono.com)

       Estive num pequeno espaço de turismo rural, apreciando a paz que se vive no interior do nosso país, e observo com agrado e delícia alguns artigos para venda, de fabrico tradicional, se não mesmo caseiro, e comento com a gerente do espaço a originalidade dos produtos, a raridade e bom aspecto, ao que me foi acrescentada a qualidade comprovada por diversos clientes. E depois a Bomba, que só não actua como uma bomba por já ser um "pão-nosso de cada dia": "...é uma senhora velhinha que fazia... deixou de fazer agora porque foi lá a ASAE. Ela até tinha tudo em ordem, mas as especificações obrigavam a obras e ela não podia, nem tinha dinheiro para isso, por isso acabou por deixar a produção...". E é isto, mais uma vez, temos a nossa tão afamada Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (também referida já por muitos como uma nova polícia política), a zelar pelos nossos interesses, e a levar mais uma pessoa a deixar de trabalhar, para viver apenas com a pensão que, a julgar pelas dos ex-políticos, dará para viver à farta! (não possuo dados acerca da anterior função da senhora, mas não creio que tenha sido política). Ora vamos pesar: menos uma pessoa a produzir, menos uma pessoa a descontar, a pagar impostos, a continuar a arte tradicional e os costumes riquíssimos do nosso país, mais uma pessoa a viver da pensão miserável com que este país retribui a vida de trabalho dos seus idosos, mais uma velhota encostada num lar, a olhar os que passam, à espera da morte, porque a ASAE acha que só se pode usar rolhas compradas à empresa certificada X em vez de as fazer ela, dos seus sobreiros, e produzir só numa oficina, e não em casa, ainda que até há pouco estivesse tudo legal, tudo limpo, tudo em ordem. 

       Havia um salão de chá em Aveiro. Era impecável, calmo, com uma diversidade de chás fantástica e de muito bom gosto, e com bolos a acompanhar devidamente, feitos pelos próprios, claro está, que eram possuidores de muita mestria na arte da confecção. Dei noutro dia com a porta fechada, e uma nota aos clientes informando educada e dolorosamente que por impedimentos de prosseguir actividade com a qualidade a que tinham habituado os clientes, optaram por fechar o estabelecimento. Refiro, por informações adquiridas junto dos próprios, que uma das obrigatoriedades impostas era de todos os produtos serem encomendados de fabricantes, uma vez que não tinham instalações próprias de fabrico (os bolos eram feitos em casa...). Presumo então que em vez do bolo delicioso de chocolate que comi da última vez, seria um bolo perfeitamente legal, com químicos suficientes para se conservar uma semana, afinal tudo o que o meu corpo precisa, conservantes!

       Vamos a ver: aparte o debate que se processa neste momento acerca da legalidade da ASAE, e antes que alguém que perde toda a fonte de rendimento e ainda é multado e enlouquecido pelo cúmulo ridículo disto tudo comece aos tiros e nem todo o treinamento que os agentes tiveram nos EUA os safa, aparte tudo isto,o  que nos resta, que opções temos, que pode o governo fazer para limpar esta esterqueira?

       Restituir-nos a capacidade de decisão. Se compras castanhas na beira da estrada, sabes que por vezes têm bicho. Mas já sabes isso à partida, porque provêm de pequenas produções, com poucos recursos, e muitas vezes sem recursos para uso de QUÍMICOS! Se compras queijo ao pastor, sabes q foi feito com as mãos. Mas também sabes que é leite, coalho e sal. Ninguém te engana com E-trezentos-e-picos e ingredientes que legalmente têm que vir referidos, ainda que não saibas o que são, ninguém saiba, nem haja estudos sobre o seu efeito. Vinho. Pisado com pés lavados. Lavados, mas pés de gente que trabalha. E vais buscar uns garrafões ao produtor que era amigo já do teu pai, e é uma pomada boazinha, barata, só de uva. E todos te perguntam onde o vais arranjar, pois é bom. Tudo isto é do nosso direito de escolha. Quem quer, tem em todo o supermercado. Que, espero eu, lutem contra o sistema, que quer cada pêssego embalado individualmente. E cada banana? Emprego: individualizador de bananas precisa-se; dá-se preferência a quem possua experiência com amendoins. E escolher meloas pelo cheiro (tenho nariz para o assunto!) acaba-se, pois cada meloa estará higiénica e hermeticamente embalada. 

       Ou seja: deixem-nos optar! Deixem respirar o país e a tradição! Ponham selos de certificação da ASAE em quem os requerer, e os restantes produtores que fiquem sem selo ou com um de "Produto Tradicional" ou  "Produto Caseiro", que seja! Não deixemos morrer os produtos tradicionais por uns escrúpulos ridículos que insistem em manietar também a nossa cultura! Acabemos com a ASAE como a conhecemos, partamos para uma fiscalização sã, mas humana e real!

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