terça-feira, 15 de maio de 2012

Escolher


foto: Dan Bass

Li hoje um artigo no jornal, resultados de mais um estudo, se os casais com filhos são mais felizes que os casais sem filhos. Estudos anteriores diziam que os casais sem filhos, entre os anos 70 e os 90, penso, eram mais felizes que os casais com filhos. Que mudou em meados de 90 até 2008, data do estudo. Como se mede isso? Como se mede a felicidade de uma pessoa? Como se mede a satisfação de uma pessoa? Não me ausento dos pensamentos do que desejei e esperei, e que hoje poderia ter mudado a minha vida, caso tivesse sido pai há algum tempo atrás. 
Mas, da mesma forma, todas as nossas decisões têm consequências, para nós e para os outros, e como tal é necessário viver com isso, aceitar essas decisões e essas consequências. Querer isto ou aquilo, implica uma escolha. Nem sempre acertada. Mas implica ter um papel activo. E viver com isso, repito. Há decisões fáceis e quase inconsequentes, mas mesmo essas significam rumar para ali em vez de rumar para além. E o caminho ramifica-se uma, e outra vez. 
Daí que dizer que os casais com filhos são mais ou menos felizes que os outros me parece inválido. Conheço ambos os casos. Não encontro termos de comparação. Assim como conheço pessoas sozinhas mais e menos felizes que casais. Como conheço casais inteligentes mais e menos felizes que casais menos inteligentes.
E assumo-me incorrecto e errante e "pecaminoso" (se a palavra ajuda a descrever), mas sou mais feliz assumindo os meus desejos e os meus atropelos à liberdade dos outros, do que quando procurava libertar-me de tudo isso, que no fundo faz de mim apenas humano. Mas ao menos não sou hipócrita, e não dobro essa "procura" conforme me apraz. Nem procuro encaixar na sociedade, e mostrar-me, e vender-me. Cedo e falho e perco-me vezes sem conta, sou fraco e caio em facilitismos com frequência. Mas pelo menos tenho a certeza de que sou eu, mesmo que não saiba quem sou.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Zeros

Temos o que queremos. Quase sempre no imediato. Tudo o que somos e tudo o que temos se deve a nós, e não à "vida", ou ao "destino", ou a um deus qualquer. Atribuir justificações, mesmo que apenas intimamente, para nós próprios, é já inconsciente, tal é o hábito com que crescemos. Agora porque tenho de trabalhar, agora porque tenho de estudar, agora porque tenho de ir comprar umas botas, agora porque tenho de ir viajar. E tudo porque porque. E nada fica natural. Nada é deixado puro, tudo é formatado, tudo é condicionado, tudo é pensado e racionalizado e pesado e medido e comparado. E passas a querer algo idêntico ao que os outros querem. Passas a identificar-te com o que os outros fazem. E o que identificas como ser original, é apenas ser melhor que os outros em algo: ganhar mais dinheiro, ser mais bonito, ou mais forte, ou ir mais longe, ou ser mais famoso, mais, mais, mais. Sempre um mais. Mas a palavra "mais" implica um termo de comparação. É sempre "mais que" alguém, algo. "Mais"... do mesmo. E a tua identidade é apenas isso mesmo: "mais" um, "mais" do mesmo. "Tu" não existes, "Tu" és uma parte do todo. Certo, estás integrado, fazes parte, pertences.

Passei algum tempo em que me fechei. Em que me isolei. Contactava socialmente no emprego, e essa era a minha única ligação. De qualquer forma, ausente de confianças, e formal. E distanciei-me o suficiente para sentir quem sou. E rio-me quando ouço alguém dizer que sabe o que quer, que sabe onde está, que sabe quem é. Eu não sei. Porque quem sou não sei dizer. Porque se digo que sou ninguém, isso significa que não encaixo nos nomes e adjectivos que conheço, que descrevem algo limitado, e eu ainda não encontrei os meus limites e definições. E onde estou? Estou onde os meus passos me trouxeram, e não soube, ou não quis, ou simplesmente não escolhi dar outros. Mas os passos foram sempre os meus. E o que quero? Não sei. Sinto os dias. Porque já quis muito, já fiz muitos planos. E não controlo os dias, não controlo nada mais que os meus passos e as minhas decisões. Não deixo, de uma forma mais ou menos consciente, de planear, de projectar, de procurar. E porque temos o que queremos, preciso perceber o que realmente quero. E paro, frequentemente, e tento sentir o que de verdade desejo. Porque é fácil cair no conhecido, no generalista, nos desejos dos outros, nos desejos comuns. E quando se está, como estive, isolado, acompanhado de mim, lidando só comigo, sem fuga, todos os desejos externos se desfazem, se não procurarmos neles o alívio para a solidão. Se abraçarmos a solidão, temos todo o tempo com o nosso íntimo. E percebemos que viver em sociedade custa-nos a identidade. E ter a consciência disso pesa-me e em cada segundo que me deixo parar e invejar algo ou alguém, ou querer ser ou ter ou estar, irrito-me e zango-me comigo, porque é tudo falso. É tudo uma fuga para facilitar o meu dia.

No fim de contas, tudo exterior a ti é uma limitação. Mas dança conforme a música, se é isso que te dá conforto.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Vermelho-Fogo

Odeio. É um sentimento. Não o nego. Dei finalmente a volta completa, e odeio. Odeio não confiar mais em mim próprio, nos meus instintos, saber o que me diz o aperto no estômago, as mãos a suar, a dureza na expressão. Odeio acreditar nos outros, quando no fundo me conheço, quando no fundo sei quem sou, e sei que a minha visão não é nem está toldada pelo orgulho ou por uma necessidade de estar sempre certo, como se toda a interacção humana fosse uma competição, como se estar sempre certo seja melhor, mesmo que para isso fechemos os olhos ao que não queremos ver. Odeio quando percebo que permanentemente valorizo os que me rodeiam, porque vejo esse valor, e tudo o que sinto é que acabo diminuído. Que sou, muitas vezes, menos que uma nota de rodapé. Odeio não ser um cabrão. Odeio não ser um mentiroso, um filho da puta, um egoísta. Odeio odiar. Odeio sentir, ódio, amor, raiva, tudo, tudo. Odeio não ser capaz de sentir indiferença, e sinto-me ferido por isso. Odeio, odeio olhar em redor com o sabor de ódio na boca. Odeio teorias, histórias, desculpas, argumentos, distracções, odeio o silêncio de guerra em que me encontro. Odeio não saber mentir. Odeio não saber ocultar. Odeio duvidar. Odeio passar num mundo vazio, e no meio de todos, não ver ninguém. Odeio que a minha cor sejam as minhas palavras. Odeio as palavras que amo, que são sempre minhas, que são sempre minhas e sentidas. Odeio. Repito: Odeio! Odeio sentir que nada do que penso é verdade. Tudo o que é real é o que sinto. E ninguém explica o que é sentir. Odeio o ar que respiro, que hoje me falta, que me prende, que me inflama. Odeio odiar tudo isto, porque tenho que odiar, porque tenho de confiar, porque tenho que ser, que sentir. Porque odeio, e este é o meu lugar, hoje.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Aqui, Nu, Agora


Este ano tudo mudou: relacionamentos, família, amigos, emprego, estudos, habitação, mobilidade, mentalidade, cultura, espiritualidade, corpo. Aprendi muito, descobri muito, conheci muito, esperei, projectei, realizei, desiludi, apoiei, afundei-me, levantei-me, regredi e cresci, entrei, saí, desci, subi, ouvi, falei, calei, desejei, chorei, ri feliz, sorri triste. Recebi, dei, acreditei, ganhei e perdi. Tudo isto repetido, poucas ou diversas vezes. Foi um ano intenso, procurei acalmar por diversas vezes, fechar-me ao mundo quando encontrava conforto num lugar, numa acção, numa pessoa. Por vezes de forma errada, por vezes correcta, acalmar era um objectivo errado, quando o que procuro é paz. E isso é muito diferente, pois posso encontrar no meio do turbilhão, da correria, do caos, a paz que preciso. Foi um ano tremendo, um ano repleto de dias especiais, de sensações onde vibrei à mais íntima fibra de mim, de desejos negros e de desejos puros, de fundo do poço e de topo da montanha. De muito suor, de luta, de esforço, e de dormência também. Sei agora  mais do que sou, sei mais o que quero, sei mais o que sinto. A minha impulsividade, a minha entrega, os meus sentimentos, desejos, fraquezas e dependências. Sei um abraço e sei um murro no estômago. Sei o poder do meu sorriso, e sei a escuridão no meu olhar. Sei o que não sei, o que não consigo ser, o que não consigo dizer ou fazer, mas também o que sou capaz de dar, de sentir, de ser. Sei-me agora mais nu que nunca. Mais humano, mais eu, sinto-me livre, agora, para errar caso o deseje, aceitando, e livre para recusar o que me for dado, ainda que na melhor das intenções. Aceito os desafios, finalmente começando a descomplicar, deixando de pensar em tudo e em todos antes de cada passo. Deixando de duvidar. Acreditando nas minhas mãos, rejeitando o fatalismo da "vida", do "universo", do "destino". Meu, pertenço-me. Vejo mais e melhor, vejo um mundo que não se conhece, vejo-me nesse mundo e sou eu. Excito-me com pequenas coisas, sinto que o agora é mais importante que o talvez. Gostaria que o talvez fosse o agora. Mas sou eu, mais que nunca, e sou fruto de mim, e do que fiz, do que pensei, do que caminhei. Sou eu, aqui, nu, agora.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Confissão

Assumo-me como Homem. Cheguei à realização de que todos andamos à procura e não há nada que procurar. Há sim, que viver. Criámos religiões, filosofias, credos, ideologias, comportamentos e rituais para nos confortar, para nos dar apoio por não sabermos realmente tudo. E passamos a vida inteira acreditando nisto e naquilo, sempre a lutar, sempre a evoluir, sempre a investir no futuro. E restam-nos apenas dois caminhos: ou esquecemos a luta pessoal, como indivíduo, e vivemos confortavelmente ao sabor da corrente da sociedade, rindo com os outros, chorando, vivendo sem pensar, sem preocupar com nada que não seja o comum, cometendo os mesmos erros e desrespeitando o próximo na forma "normal"do dia a dia, ou buscamos um significado mais profundo do nosso ser, procuramos evoluir, entender, melhorar, lemos muito, meditamos, rezamos, tornamo-nos ascetas privando-nos do alimento, do sentimento, do próximo, do planeta, se possível. E no meio de tanto pensamento, tanto estudo, tanta evolução, tanta busca de respostas, alguém alguma vez pensou que tudo, TUDO isso pode apenas ser fruto do nosso cérebro? Que constantemente cria raciocínios e explicações mais ou menos lógicas para o que o confronta, situações, emoções, e faz uma gestão influenciada de tudo isso. O derradeiro criativo! E com tanta definição, esquecemo-nos de sentir, genuinamente. De ser, genuinamente. Falo por mim, agora.  Recentemente percebi que estou muito condicionado pelo respeito que procuro ter pela liberdade das pessoas, ainda que muitas vezes falhe, ou por falta de visão, ou por envolvimento emocional, ou por ambos. Mas quando me apontam que não posso pedir, nao posso exigir das pessoas, eu percebo, e sim, tem lógica, e sim, o meu cérebro diz que é correcto não o fazer. Mas eu quero, e sinto, e genuinamente sou assim. Não sou um asceta, não sou um mundano. E sim, percebo que me excedo muitas vezes, e aí sim, o meu cérebro deve contribuir para um respeito devido, mas não , não devo deixar de querer, de pedir, se é isso que a minha essência sente e deseja. Sinto que quero agora, ou que quero amanhã, ou que quero daqui a 2 anos, então permito-me querer isso tudo. Sim, estarei a fazer planos. E a aceitar que podem implicar e chocar com outras pessoas. E eu quero o que quero, e posso deixar de querer, e posso alterar os planos, posso combinar esses planos com os outros, posso fazer cedências ou não, mas tudo isso é meu, é humano, e é sentido. Não é mais egoísta que querer o conforto da dormência dos dias e noites "mundanos", "normais", de trabalho-casa-familia-televisão-café; não é mais egoísta que a busca da individualidade impenetrável, onde cada um é deus em si mesmo e o mundo e o universo e a realidade. É o meu egoísmo, onde eu sinto, eu assumo que quero, e ainda que esteja a "pisar"dentro da realidade e da liberdade dos outros, estarei a abrir a minha liberdade a eles, e a partilhar-me, a deixar entrar. Se não o fizer, vou estar a impedir imensas possibilidades, a isolar-me e aos outros, dentro das suas "bolhas". Se o fizer, vou estar a dar um passo na direcção de alguém, e na direcção do que desejo. Posso calcar o pé de alguém. Posso roubar espaço a alguém. Ou posso descobrir que não há limites para os espaços de ninguém, se todos se abrirem.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Momento de Viragem

"Tudo a bombordo", grito. E rumo para norte, para a neblina, para o incerto, mas também para o novo, para o por descobrir. Rumo e no rumar está o sentido, e o destino mudará, provavelmente, mas o que passou a importar é a nau, e o caminho que percorre, e o mar em que se encontra. Se esse mar é profundo, se tem correntes perigosas, ventos favoráveis ou contrários, não importa. Importa existir o momento, e a nau. Destino, será venturoso, será uma praia, será um porto seguro, serão os escolhos ou as escarpas de uma qualquer costa perdida, não importa. O mar calmo que percorria, abandonado em desinteresse e paz, também se ficou para trás. Teve o seu propósito. Mas agora, com o casco reparado, com velas novas, é tempo de navegar de novo, agora sim, vivo, de procurar as ondas, de senti-las bater na proa, o vento a fustigar os panos, o cordame a assobiar nas tempestades, a espuma brava e branca a picar forte na face.  Ergo-me renovado e vivo, sinto crescer em mim o Adamastor, com os seus humores de destruição e de admiração, sinto-me percorrido de correntes quentes e frias, amor louco sem fim seguido de solidão desolada, fraternidade real e sincera seguida de ódio quase global, e de regresso ao amor completo. Tudo isso me faz sentir vivo. Confio agora no mar, entrego-me com fé ao seu abraço, deposito nele o meu tesouro, rendo-me ao meu caminho. E é este o meu propósito: navegar. Não mais será chegar. Não será chegar um porto que desconheço. Navego agora. Neste mar que sou, também, eu.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pulsação

Esquece. O que penso saber revela-se uma e outra vez em desacordo com a realidade. O caminho que se abre e é incerto, é bem recebido, mas onde leva, receio saber. Cansa-me caminhar atento, quero caminhar sossegado. Não pretendo que seja um passeio. Mas sempre alerta, sempre a antever o que virá depois da curva, adivinhando pelas sombras que se projectam à distância. E porque não caminhar confiante? Porque afinal o caminho está aí, ficar parado não leva literalmente a lado nenhum. Estúpido e pequeno, da minha parte, assumir saber o caminho para a frente, ou o seu destino. Não se altera o caminho, ou se segue por ele, ou se muda ao escolher nos cruzamentos. Quanto tempo perco eu nos cruzamentos. Quando os antevejo, abrando o passo, e começa a tortura. Preciso resolver isso. E resolver a aceitação, nunca mais pensar "E se tivesse virado à direita lá atrás?", que não adianta, porque o caminho é de um só sentido, não poderei voltar atrás. Gosto de caminhar. Mas estou cansado.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

braçadas contra a corrente

Uma e outra vez, volta e mais outra volta. A vida goza-me à farta. Não traz manuais, não dá explicações. Era bom de vez em quando falar a sério comigo. Eu não danço. Deixo a vida levar-me, mas leva-me ao lado, não me conduz. Decido que vale a pena viver, com todas as surpresas, más e boas. Entendo o desespero, entendo a dor, mas também entendo a alegria e a gratidão. Apetece-me correr, mas caminho apenas. Apetece-me dormir, mas caminho. Ainda assim, sem insistir. Raio de voltas. Porque não percebo? Preciso de paz. A luta já vai longa. Desorientei-me quando perdi todos os exemplos. Quando percebi que só sou eu. Quando afinal todos os exemplos não o eram, são afinal todos maus. Quero uma vida minha. Estou farto de estar sozinho, mesmo quando não estou. Mesmo comigo, ainda estou sozinho. Embora já não tanto. Já vivo comigo em maior diálogo. Ainda assim, a vida troca-me as voltas. De novo. Estava a chegar ao ponto da aceitação, o que precede a paz. E outra volta. Preciso aceitar.
Preciso mudar, também. Quase não dá para respirar. É como descer uma montanha de bicicleta, não dá para parar, dá apenas para travar antes das curvas para não me espatifar. Mas viver é uma adrenalina...

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Estranhas Marés

Estranhas marés estas em que me encontro. Alternância entre estados de espírito quase opostos, de desejo de solidão a desespero dentro dela, de desânimo a euforia e volta, de força a desalento, de vontade de caminhar à vontade de desvanecer. Esgota-me este balouçar. Falham-me as palavras boas, quando em tempos me fluíam naturais. Nunca estive tão forte, e no entanto nunca me senti tão impotente. Uma coisa boa, no entanto: nunca estive tão perto de mim.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Desalento

Vivemos a época do desalento. Tudo é vazio. Corremos, excitamo-nos com tudo o que podemos fazer, tudo o que podemos ter, tudo o que podemos viver, e tudo é um crescer!... até ao ponto em que percebemos que tudo é vazio. Toda a realização que procuramos é nada. Todo o reconhecimento que, ainda que inconscientemente, buscamos, é fútil. E corremos, excitamo-nos, lutamos mais, e tudo são enormes derrotas que conseguimos em cada vitória. E dei um passo, e corri, e excitei-me, e lutei, e agora que estou a conseguir, percebo que não estarei nem um passo mais à frente de onde comecei. Porque no fim de contas sou só eu. Tu, no fim de contas, serás só tu. E tudo o que lutaste, no fim de contas, serviu para nada. Tudo é uma grande farsa. Vive. É simples.

sábado, 15 de maio de 2010

Rumo ao futuro - mudar mentalidades


O país precisa mudar mentalidades. Tenho esperança. Mas não posso deixar de sentir essa esperança cada vez mais vã ao observar o rumo das coisas. Há já alguns anos que me deparo com uma classe política arredada dos interesses públicos, ou sequer nacionais. Considero algo que ultrapassa o desrespeito, a mais completa ausência de um mínimo de consideração o que é feito como um jogo simples no qual o povo cai permanentemente, e sobretudo nos últimos dez anos, em que jogadas políticas, escândalos e fraudes são permanentemente encapotados com outros mais mediáticos, e subidas de impostos e grandes obras megalómanas anunciadas quase em nota de rodapé entre campeonatos de futebol e a vinda do Papa, recebido com mais honras que um chefe de estado, quando o Dalai Lama é propositadamente ignorado pelos governantes. Não sou contra os líderes religiosos, apenas considero que se somos um Estado laico, devemos receber todos com igual importância, com segurança, mas sem excessos, e muito menos sem o esbanjar de riquezas num momento que se pede de contenção.

Diz o Sr. Primeiro Ministro que é preciso subir o IVA, também nos escalões mais baixos, nos chamados produtos de primeira necessidade, justificando a um jornalista (penso eu estar a descrever correctamente) não ser justo que famílias como a sua própria e a do jornalista paguem também 5% sobre o pão, o leite, a Coca-Cola, porque não lhes é difícil. E a lógica está em aumentar para todos? Cansa-me esta lógica. E cansa-me que alguém com tantos casos "cinzentos" permaneça ao leme deste país, rumando a um futuro próximo muito difícil, e saber que está salvaguardado um bote salva-vidas para uns quantos. É desse bote também que quero falar, foi um email que recebi, sobre alguns desses afortunados (esta palavra tem um sentido muito literal aqui) e dos seus rendimentos mensais, informação que anexo no fim desta missiva.

Voltando ao Sr. Primeiro Ministro, enoja-me a sua situação. Não sei sequer que pessoa é esta, não sei se é engenheiro, não sei se é corrupto, não sei se é educado, não sei se é proprietário, não sei se é manipulador. Sei que as suas poucas medidas acertadas, e a coragem que teve em as assumir, não escondem nem compensam tudo de mal e errado que fez e faz ao país e ao povo português.

Eu quero voltar a acreditar. Mas não quando vejo o primeiro partido da oposição mudar de um líder ausente e deslocado, para um líder sem passado, político de carreira, cujo único trunfo é ser bem-falante. Não acredito quando pessoas inteligentes e de grandes valores se deixam perder em pormenores "menores", quando o que é necessário é uma reforma séria e integral. Não acredito quando temos medidas simples - e sim, são simples! - possíveis e que o governo nem sequer põe na mesa. Mas efectivamente o povo distrai-se com facilidade, e entre futebol, novelas, o Papa, e se metermos um referendozinho polémico ou uma lei que possa dar que falar relativa a valores familiares, mas que no fundo acaba por ser legislado sem respeitar a opinião do povo, então neste caso não posso acreditar que algo vai mudar. É toda uma dispersão da atenção. Há que focalizar, há que fazer o povo acreditar, e focar a atenção no rumo do país, e deixar para trás a imagem de miserabilidade, e de que "estamos aqui à conta de Deus". Se for preciso, tirar o circo, porque o pão, esse, já é pouco, e sem circo podemos talvez acordar.

Estou farto e cansado, mas quero acreditar. Nunca aceitei desgraças, nunca tive medo de trabalhar. Mas não posso aceitar que alguns senhores decidam que eu preciso de um TGV, um aeroporto e uma 3ª travessia sobre o Tejo, quando o que eu preciso é de um serviço de saúde capaz, de um sistema de ensino credível e respeitado, de uma assistência social adequada e bem fiscalizada, de uma função pública proporcionada e adequada, de uma Justiça impoluta, acreditada, funcional, e de serviços de segurança também adequados, com poder efectivo. Se podemos ser melhor que os outros? Penso que sim, mas não vamos inventar a roda. Há modelos correctos e que funcionam noutros países, por que não aprender com eles? Modelos de Saúde, de Educação, de Justiça e Segurança, de Transportes. Neste momento, temos falta de quadros médios qualificados. E temos licenciados a ganhar 600€. Alguns com mestrado, a ganhar mais cento e poucos euros que alguém sem estudos ganha com o ordenado mínimo. Alguém que investiu no seu futuro, e que vê esse investimento pago em pouco mais de 100 euros por mês. Recebi este mail que segue abaixo, cuja veracidade não sei autenticar. Mas não me admira, efectivamente, ser real.

(Início:)

"Salário mensal dos seguintes senhores:

-Mata da Costa: Presidente dos CTT, 200.200 Euros

-Carlos Tavares: CMVM, 245.552 Euros

-Antonio Oliveira Fonseca: Metro do Porto, 96.507 Euros

-Guilhermino Rodrigues: ANA, 133.000 Euros

-Fernanda Meneses: STCP, 58.859 Euros

-José Manuel Rodrigues: Carris 58.865 Euros

-Joaquim Reis: Metro de Lisboa, 66.536 Euros

-Vítor Constâncio: Banco de Portugal, 249.448 Euros (este é que pode pagar mais IRS)

-Luís Pardal: Refer, 66.536 Euros

-Amado da Silva: Anacom, Autoridade Reguladora da Comunicação Social, ex-chefe de gabinete de Sócrates, 224.000 Euros

-Faria de Oliveira: CGD, 371.000 Euros

-Pedro Serra: AdP, 126.686 Euros

-José Plácido Reis: Parpública, 134.197 Euros

-Cardoso dos Reis: CP, 69.110 Euros

-Vítor Santos: ERSE, Entidade Reguladora da Energia, 233.857 Euros

-Fernando Nogueira: ISP, Instituto dos Seguros de Portugal, 247.938 euros (este não é o ex-PSD que se encontra em Angola !! )

-Guilherme Costa: RTP, 250.040 Euros

-Afonso Camões: Lusa, 89.299 Euros

-Fernando Pinto: TAP, 420.000 Euros

-Henrique Granadeiro: PT, 365.000 Euros



E ainda faltam as Estradas de Portugal, EDP, Brisa, Petrogal, todas as outras Observatórios e reguladoras ... Vilanagem É um fartar enfim! E pedem contenção!!

Imaginem o que é pagar um Subsídio de férias ou de Natal a estes senhores:''Tome lá meu caro amigo 350.000 EUR para passar férias ou fazer compras de Natal''.

E pagar-lhes esta reforma ... É no mínimo imoral e no máximo corrupção à sombra da lei ... Até porque estes cargos não são para técnicos, Mas são de nomeação política .. É isto que lhes retira toda e qualquer credibilidade junto do povo e dos quadros técnicos.



TUDO NOSSO DINHEIRO QUE ALIMENTA ESTE BANQUETE, ONDE A CRISE NÃO BATE À
PORTA E Onde há aumentos PARA SEMPRE Amigos"

(fim)

Não alterei o conteúdo nem sou responsável por ele, mas é gritante que, havendo salários destes em empresas públicas, se ouçam mensagens de ser preciso unirmo-nos para ultrapassar a crise, custa a todos, etc., etc. Não custa a todos, não senhor. Esta é a minha indignação. A solução não a tenho, mas tenho algumas ideias. Isto não pode continuar, a frase é velha, mas não o é na minha boca, e espero que não seja na boca de muitos portugueses neste momento. Espero que o não seja na sua também.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Os Três Mundos

Há o meu mundo, há o mundo em que vivemos, e há o mundo que deve ser. Penso que devo aproximar o meu mundo ao mundo que deve ser, e não ao mundo em que vivemos. E todo o ser humano sabe no seu íntimo como é que o mundo deve ser, e espantar-se-ia se visse que esse mundo é idêntico para todos os seres. Será sempre uma questão de não "ir com a corrente" do mundo em que vivemos. O facto de dominarmos o mundo em que vivemos apenas significa que ele e o nosso mundo são muitos semelhantes. Isso significará um sentimento de realização sempre mais oco, porque obriga a ignorar o mundo que deve ser. Não me alongo. Apenas deixo este pensamento.

segunda-feira, 16 de março de 2009

E o que foi não volta a ser


imagem: Autor não identificado.

Custa-me. Na semana que passou, umas quantas tragédias familiares. Morreram crianças pequenas, crianças que deveriam estar à guarda dos adultos. E morreram por nossa culpa. Não é culpa dos pais, é nossa.
As crianças não são responsabilidade dos pais. As crianças são responsabilidade da sociedade. Não foi um pai que se esqueceu do bebé no carro ao sol, nem um pai ou uma mãe que deixaram a criança ser puxada pelo mar, nem os irmãos que deixaram o pequenito sozinho e ele caiu ao poço aberto do vizinho. Somos todos nós que nos desresponsabilizamos da educação das nossas crianças, que faltamos ao apoio que precisam, que as formatamos e condicionamos num sistema que nos dê o menor trabalho possível. Se perguntar a 10 portugueses de quem é a responsabilidade da educação dos filhos, surpreender-se-á com a percentagem que responderá "é do professor!". E isso é notório, quando cada vez mais sabemos de casos de pais e tios e primos que vão à escola pedir satisfações à força por castigo ou aquela nota má que deram "ao seu menino" - Nota de louvor a uma Associação de Pais de uma escola de Braga, que defendeu o professor do pai de um aluno, dizendo que este apenas "enxotou as moscas" ao rapaz, quando o pai diz que o menino levou um cachaço que até ia perdendo os sentidos, e até o levou ao Hospital para o examinarem!
Somos irresponsáveis. Trabalhamos de sol a sol, chegamos a casa cansados, não temos paciência nem vontade para chegar a casa e ainda ter de ajudar o miúdo nos estudos. Ou perguntar-lhe como está. E interessar-se pelo que ele tem a dizer. É tão mais fácil dar-lhe a consola que ele está sempre a pedir, fica tão sossegadinho, tão bem comportado, lá no quarto, para que o barulho do jogo não nos incomode. Precisamos trabalhar. E não vemos que estamos a perder as nossas crianças. Para as termos controladas, colocamo-las em actividades, na música, no desporto, na dança, e depois as notas descem, e vão para o apoio escolar, para as explicações, depois o dinheiro não chega, e temos de trabalhar mais para chegar, e temos menos tempo ainda, e pergunta-se a qualquer pessoa e a criança é uma trabalheira, e deixas de ter vida própria, e tudo muda, e tudo muda, e não tens tempo para ti, para namorar com a tua esposa, para viajar sem compromissos, para umas férias sossegado. E a criança? Que é feito do "crescer saudável, correr e brincar" que deveria ser natural? É apenas um fardo? É apenas um passo normal, como casar, apenas porque todos o fazem? É já algo mecânico? É só para currículo? Não deveria ela ser integrada na nossa vida, ser um indivíduo?
Criticamos os tempos idos, em que não havia dinheiro para nada, em que as crianças começavam a trabalhar para ajudar os pais logo cedo, em que as famílias não tinham tempo para carinhos, não havia educação, os miúdos eram tratados como força de trabalho, levavam uns sopapos ou pior quando rompiam as calças a brincar, ou perdiam os botões da camisa, porque os arrancavam para jogar ao botão. Criticamos, como criticamos tudo, e não vemos que fazemos o mesmo, e também o oposto. Temos o mesmo desapego, porque não lhes ligamos, porque também temos tantas ou mais preocupações que os nosso avós (o que é nosso é sempre maior, achamos nós). Mas empurramos a responsabilidade para os outros, os professores, as educadoras, coisa que era impensável noutros tempos. Não os conhecemos, eles não nos conhecem. Explicamos as coisas da maneira mais simples, e dessa maneira os ensinamos a ser "espertos", a contornar "essa sociedade danada em que vivemos". Mas afinal não somos nós essa sociedade? Se é danada, não seremos nós os responsáveis, e não nos caberá a nós mudá-la? Coisas básicas como o respeito: antigamente a voz do pai trovejava pela casa, e fujam que ele vem de cinto na mão. "Educações" violentas eram comuns, infelizmente. Por outro lado, um professor era um mestre, a educação era um privilégio. Podia também ser um verdugo. Eram outros tempos. Não justifica, mas enquadra. Hoje em dia, como pedagogicamente não se fala em papões, come a sopa senão o Sr. Polícia vem-te buscar. E temos a imagem má da figura primeira de autoridade inculcada desde o berço. Depois vêm os professores, e começa-se com "o meu menino sabe muito, sabe mais que o professor, imagina que aconteceu isto bláblá" (uma desatenção do professor, um caso fora do contexto ou mal contado), e passado pouco tempo o miúdo, que nunca estou com ele porque ou estou a trabalhar ou ele está no quarto, vem e diz que o professor o espancou. E eu, para mostrar que sou um pai atento e presente, pego no menino pela mão e vou tirar satisfações ao professor, porque o miúdo é tão bem comportado, nem sai do quarto, coitadinho, na escola nem devem haver outros assim, e tem de ter toda a razão e o professor é um carrasco, um selvagem, e deve ser banido, acorrentado, chicoteado por traumatizar assim o meu anjinho!
E somos todos esta sociedade. E todos permitimos isto. E cada criança que cresce assim é uma perda. E cada criança que morre porque a sociedade está toda a trabalhar, nos pesa nos ombros. Não é no pai que está a culpa. Não é na mãe ou nos irmãos. É em nós. Em nós que trabalhamos. Em nós que só vemos o trabalho. Em nós que só nos vemos.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Rompendo diques

Rompendo diques, abanando as árvores, como queiram. Interessa interromper os caminhos normais, cansar-vos, fazendo-vos pensar. Uma tradução seguir-se-à logo que tenha oportunidade.

Vejam um lado:
http://www.twoorthree.net/2008/12/101-christian-q.html
e o outro:
http://atheistblogger.com/2008/02/15/101-atheist-quotes/

Boas reflexões.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

A Permanência da Morte


(imagem: Tony Hamilton)

     Tudo já foi dito acerca da morte: que há vida para além desta, que ressuscitamos, que reincarnamos, que vamos para o Céu ou para o Inferno ou para o Purgatório, para o Nirvana, para outra dimensão, para viver junto dos Extraterrestres que nos pariram, e há quem diga que acaba tudo nesta. Ora vamos ver esta última, que será até a menos referida por ser a mais desagradável. Há poucas certezas tão certas como a morte. Morremos. Ponto final. Cessamos, e cessa tudo o que conhecemos, como conhecemos. Isto levanta uma série de questões e preocupações a nós, aparentemente os únicos seres racionais no planeta. É provável, uma vez que a nossa noção de razão é mesmo isso: nossa. Mas resolvemos muito bem a questão da morte: não se fala disso! Ou então criamos crenças que desafiam esse final, e damos o assunto como resolvido, não se fala mais nisso, tratemos de vida! Mas só até ao próximo funeral. Aí todos somos lembrados de algo mais, algo que está acima das nossas crenças. A tristeza e melancolia no acto confronta-nos com a realidade que não queremos. E aliviamos a pressão, através de rituais, para tornar esse confronto em algo dramático e artístico, que reforce a crença na existência de um depois. 
     Será esse o custo de ser racional? Não conseguimos encarar a hipótese de sermos apenas como um caracol, ou um pardal, ou um pinheiro, que vive a sua vida, o tempo médio da sua espécie, e morre, apenas? E se é esta a realidade, por que motivo evoluiu o homem de forma diferente, e desenvolveu consciência? Desenvolveu cultura? É nisto que reside a minha dúvida. Se por um lado somos o ser vivo fisiológico, com princípio e fim, nascimento e morte, por outro lado somos diferentes, pensamos e criamos, tudo numa dimensão estudada, mas não fisicamente provada. Certo, já mapearam as áreas do cérebro responsáveis pela imaginação, pela criatividade, pela emoção. Mas porque as temos, e tantos animais não? De que forma específica é isso necessário, e é isso resultado da evolução? E de que maneira é que isso influencia a nossa vida, as nossas necessidades básicas de sobrevivência, nos faz necessariamente diferentes? Há algum motivo ou propósito em sermos diferentes? Significa isso realmente que há algo mais? Que não acaba aqui, da mesma forma que um grilo ou uma alface? 
     Não defino. Ninguém está certo, ou todos estão certos. Mas quando eu morrer, logo vejo.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A Enxertia

(foto: AGARYCK)

     Nesta atmosfera que vivemos em que tanto se fala em Educação, nos Professores, no Ensino Público, tenho ouvido diversas opiniões mais profundas acerca do desenvolvimento das nossas crianças, e da sociedade como resultado.
     Há todo o tipo de correntes e ideologias acerca de como educar/criar uma criança (não faço distinção). Há quem defenda que deve ser criada com todo o carinho e mimo. Deve ser protegida do mundo porque "tem tempo de aprender a crueldade lá fora". Há quem exponha e prepare para a dureza da vida, sem cedências. Há os meios termos. Há os desajustados. Há os irresponsáveis. Há os rígidos. Há-os de todas as cores. Mas todos eles, ou a grande maioria, segue aproximadamente os costumes da sua sociedade. Os chamados "civilizados" adoptaram a fórmula escolar, com diversos graus de ensino, orientados para uma profissionalização organizada e estruturada de acordo com o seu mundo do trabalho. Os povos isolados ou socialmente distintos, na sua grande maioria seguem outro percurso, com outras prioridades. As suas crianças crescem aprendendo com os adultos como suprir as suas necessidades, assim como a cultura, rituais e normas de vida social do seu povo. 
     É por esta altura que surge a minha inquietação. Qual é o caminho dos povos? A estandardização do ensino eliminará por certo muita da diversidade natural do ser humano, pois se todos trilharmos o mesmo caminho, que será dos caminhos abandonados, e onde levariam? Por outro lado, essa consolidação do conhecimento permite que se avance, em vez de estarmos todos sempre a partir do zero em cada matéria. Mas é limitador. Aprendemos com algumas religiões que há algo que nos domina e que tem poder sobre nós. Mas todas elas pedem fé, e fé é acreditar em algo apenas porque se quer acreditar. Por outro lado aprendemos com a ciência que tudo o que existe pode ser provado. Isso fecha-nos os olhos a muita coisa apenas porque ainda não se provou. A terra era plana até alguém provar o contrário. E só quando conseguiram provar uma e outra e outra vez até não haver dúvidas, se aceitou a "teoria". Mas ainda hoje há quem não acredite. O que não vemos não existe. Mas afinal sem luz não vemos nada. E o que é a luz? E o que é a energia? E se a energia existe, não se vê? Então como é que ouvimos rádio, ou falamos ao telemóvel? Alguém duvida das ondas rádio? Mas alguém as viu? E ninguém duvida, apenas porque um ponteiro num aparelhinho diz que existe? E se existissem mas não tivessem inventado o aparelho que mede essas ondas? Iríamos crer que era bruxaria?
     Isto tudo para dizer que estamos viciados. Cada um de nós não é mais que uma nova enxertia num ramo já gasto, e que cresce pouco, mais um pouco, muito pouco. A Árvore já está grande, enorme, pesada, e os seus frutos sem sumo, sem doçura. A minha questão é: devemos persistir na árvore, amparar-lhe os ramos, fazê-la reviver e renovar-se, ou devemos procurar nova semente, novas árvores, novas maneiras de florescer como humanidade? É que esta árvore está a morrer, há uma seiva gasta que percorre a casca e infecta cada nova enxertia.

domingo, 21 de dezembro de 2008

Teatro


(imagem: www.ccbeunet.br)

       Uma nova experiência, uma nova arte: o Teatro! E que experiência! Irrepetível! Um grupo de pessoas, heterogéneo em idades, credos, profissões e personalidades, todas dispostas (talvez não todas de início, mas essas motivaram-se) a dar o seu melhor, a seguir cegamente as directivas dadas pelos formadores, sem questionar, sem imaginar muitas vezes o resultado dos exercícios. E que exercícios, alguns pesados fisicamente, alguns com uma força emocional muito grande, todo o grupo de formandos se entregou nas mãos de algumas pessoas muito especiais, que nos abriram os sentidos para uma nova realidade. Muito obrigado, Formadores, pela entrega, pela dádiva, pelo empenho.

       As pessoas mudam. Eu mudo. Mudo e não me enquadro, e isso deixou de me preocupar. Porque esta formação fez-me perceber muita coisa acerca de mim e dos outros. Conheço-me mais e melhor, agora. E quanto aos outros, houve os que me tentaram ridicularizar, para pelo menos aparecer na peça final e ver o resultado da formação. Pareceu-me gostar, no fim de contas. Houve quem viesse de longe, para ver, apenas porque eu convidei, apenas por saberem que era importante para mim. Houve quem não viesse, pessoas próximas, amigos próximos, pelos seus motivos, talvez. Não disseram sequer. Não perguntaram sequer. Não posso criticar. Não sabiam, penso, a importância que teve para mim. Houve sim, quem fosse uma presença constante em quase todos os espectáculos, e soube bem, e confortou ter uma cara amiga na plateia, fosse para aplaudir, fosse para melhor criticar e comparar. Obrigado, muito obrigado a quem foi.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Ensino: resultado fácil no imediato, hipotecando o futuro

(foto: www.uberreview.com)

Eu não sou professor. Conheço muitos maus professores. Tive muitos maus professores. Mas por princípio, por educação, e por sentido de valor sincero, sempre os respeitei. Distingui os meus professores por classificação ligada ao meu sentimento por eles: Respeito (ok, pelo menos na presença deles, cá fora não podia ver alguns) e admiração (disciplinas favoritas, com bons profissionais). Mas independentemente disso, havia um sentido de autoridade básico: eu estava ali com uma pessoa que sabia coisas que eu não sabia, e eu estava ali para aprender, e ela para ensinar. Ora isso não é uma troca. Eu sou sempre o interessado e essa pessoa é o fornecedor, um fornecedor que recebe, quer entregue a mercadoria, quer não. Ora assim sendo, quando um professor, sem ser obrigado, ainda se preocupa que os alunos aprendam e aprendam bem (e não me refiro às avaliações a que agora estão sujeitos), isso é revelador de um sentido profissional e humano e um aluno só tem a ganhar com professores assim. 
Mas nada disto se passa neste momento. Se há uns anos atrás havia um facilitismo criado por alguns (talvez muitos, talvez poucos, sempre demasiados), isso derivava do respeito que anteriormente se vivia pelos professores e pela rara oportunidade de poder estudar. Passámos para uma época de maior capacidade económica, mais alunos, mais necessidade de alfabetizar o povo, e com a entrada na UE, para tapar os olhos aos outros países, alteraram-se os critérios para passar mais alunos. Erro. A falta de exigência trás sempre bons resultados a curto prazo, e resultados desastrosos a médio e longo prazo. Os professores, com os baixos critérios que lhes eram exigidos, desinteressaram-se. E com as regalias conseguidas, deixaram de trabalhar para ir fazer umas horas à escola. Ouvi coisas do género "Vamos fazer ponte esta 6ª e vamos à serra da Estrela""não posso, tenho 3 turmas, só se meter um artigo...". Ok, todas as profissões metem baixas de tanga, toda a gente faz isso, lá estou eu a culpar os professores. Não é bem assim. Refiro-me a professores que sei que tinham horários de 26-30 horas semanais, alguns menos. Tinham tarefas de direcção de turma, ou do núcleo de física ou de inglês ou etc? Concordo. Isso levava-os às 40 horas? Duvido. A profissão é delicada e stressante? Concordo. Mas tem pausas de hora em hora, e fica-se na maioria das vezes por um máximo de 6 horas ao dia 4 dias por semana. São os licenciados mais mal pagos? Concordo. Se não contabilizarmos essas regalias, os dois meses de férias por ano, mais os 3 dias de descanso semanal, e os dias de 6  horas. Se somarmos isso tudo, percebemos porque de repente ficámos lotadíssimos de professores, tudo quer ser professor. Entendam, isto é só parte da história, há o que têm de aturar, os alunos que vêm de casa por educar, a variação de humor do professor, que ainda assim tem de se adaptar e dar uma aula ainda que tudo lhe esteja a correr mal, o preparar das aulas, dos exames, a correcção dos exames, o dar notas, tudo isso custa aos professores minimamente profissionais, e ocupa tempo extra fora das aulas. Mas sejamos razoáveis: por que razão ficámos inundados de repente com professores?

Isso foi no meu tempo de aluno. Entretanto as coisas mudaram, e neste momento custa-me ver o que se sofre na docência. Por um lado, toda a formação moral deste país descambou. Os pais dão razão aos putos mimados, como dão as consolas e os telemóveis desde o berço, porque não têm tempo. Porque trabalham os dois, ou porque os filhos fazem-se como se faz o casamento, é uma linha de montagem, nasces, estudas, trabalhas, casas, trabalhas, tens filhos, trabalhas, reformas-te e morres (por vezes não é cumprido o penúltimo passo). E porque o tempo de qualidade familiar é ao jantar, com a telenovela ou a bola, tudo vai bem com os miúdos, e se vem uma nota da professora a dizer que o menino passa as aulas a enviar SMS, o pai diz "Então e isso incomoda? Queria que ele telefonasse ou passasse a aula na conversa com os colegas, não?" e não lhe passa pela cabeça que é o facto de o menino não estar a aprender que está em causa, e a professora é que está preocupada! Mas isso é típico, conheço um indivíduo que uma vez disse: "a educação do [meu] rapaz é responsabilidade dos professores, não é minha!" e acredita plenamente nisso! 

E temos o caso noticiado da "gorda peixona", do "Dá-me o telemóvel já!", que todos seguimos com desgosto, como se fosse algo que não acontece todos os dias. É algo que acontece todos os dias! Li uma notícia há pouco que mostra isso, e pior, mostra os pais a acharem-se com tanta razão que levam as coisas a tribunal! Notícia no JN online de hoje, 29 de Outubro de 2008: "Mãe de aluno condenada por agredir professora". Ok, tudo bem, uma história que não me espanta, mas a curiosidade que nos leva a procurar os pormenores levou-me a ler o artigo. Pois em Novembro de 2006, numa reunião que teve lugar na escola, solicitada pela mãe, que não aceitava o arquivamento de um processo instaurado pela docente contra o filho por agressão. A mãe desejava que a professora pedisse desculpa e que admitisse ter sido ela a bater no rapaz e não o contrário. A recusa da professora causou o descambar da reunião (conselho executivo e director de turma presentes) e a mãe a chamar mentirosa à professora. Esta decidiu retirar-se por falta de condições, mas foi impedida pela encarregada de educação, que também a impediu de ligar às autoridades, dando-lhe uma palmada na mão (provavelmente a do telemóvel, digo eu), ao que a docente reagiu empurrando a mãe, que caiu (que o tribunal considerou legítima defesa), e termina o caso com as duas a agarrar os cabelos uma da outra, depois de a professora ter sido agredida à bofetada e ao pontapé (ao verdadeiro estilo peixeirada). A mãe foi condenada, e a Juíza aconselhou-a a pedir desculpa, no mínimo (isto não faz parte da condenação) à professora , por não ter mostrado arrependimento e pelo comportamento destemperado e desrespeitoso a toda a comunidade escolar". 

É a isto que me refiro. Já não há moral, é cultivado o desrespeito e a desautorização, e o ensino vai de rastos. Ser-se professor é, agora, um suplício, com os ministros da educação e os governos a procurar na cartola qualquer milagre que resolva tudo, e agora estamos num ponto em que já nem a curto prazo nada melhora. Se é preciso quebrar o sistema todo, limpar o quadro e começar de novo? É. É preciso perceber as nossas diferenças e procurar noutros países exemplos de sistemas de ensino que se possam adequar à nossa realidade. É preciso criar gosto e valores humanos nas pessoas, talvez principalmente nos adultos, para que estes possam educar as crianças. É preciso mais que futebol e novelas para se ser uma família. E é sobretudo precisa a consciência de ideais, de valores, de agir como exemplo, a começar por cada um de nós, até isso se espelhar num governo, com resultado para todo o país. Não é utópico, não é impossível. Está tudo a um passo de cada vez, numa distância alcançável. Está tudo ali já. Porque a alternativa não é nada agradável, e cada um de nós que não faz nada arrasta-nos para ela.

domingo, 12 de outubro de 2008

Retrato de um Português Esperto



Conheço um típico português esperto, do qual vou transcrever algumas situações que presenciei. Ouvi coisas absurdas, que eu não poderia inventar, pois não conseguiria chegar a tanto. Deixo-vos à análise.

Passa um carro do INEM, muito apressado e aflito. Ouço: "Esses gajos também, pensam que a estrada é só deles!". Não comentei.

Conversa-se sobre o estado do ensino no país. Refiro que é complicado ser-se professor, quando os pais dos alunos não os educam. Ouço em resposta: "A responsabilidade é dos professores! Eles é que devem educar as crianças!". Calei-me.

Noutra altura ouço o telemóvel do português esperto, que toca uma vez e desliga-se. Ele liga, conversa algo que não liguei nem ouvi, desliga e ri-se, e diz-me: "O meu miúdo é que é burro! Tem um trabalho de Inglês para fazer, tem o computador à frente, tem internet, e em vez de o sacar da internet, não! Está a fazê-lo pela cabeça dele!". O miúdo tem 11 anos, e pelos vistos não sai esperto como o pai. Parece-me inteligente, talvez.

Chega o pagamento de um cliente, uma entidade ligada à Igreja. Comento "Clientes destes é que convêm! Dinheiro não lhes falta!", e responde-me: "O quê? Coitados, andam sempre a fazer contas à vida!", e eu argumento, apesar começar a ver a futilidade do acto: "Como, se fizeram agora um santuário novo, e nem precisaram mexer no ouro que foi todo para um museu?", e veio a sábia resposta: "oh, oh, você sabe lá! Aquilo foi dinheiro dos peditórios! Há muitos padres que se não for a caridade das pessoas, passam fome!". Aqui desisti, mas para gáudio particular, veio um dos patrões e diz: "É pá! Clientes destes é que interessam!", mas ninguém comentou.

Houve uma altura em que teve um acidente. Conta: "Ia na estrada, nuns terrenos verdinhos, onde estavam umas vacas muito bonitas a pastar, distraí-me a olhar, e quando dei por ela, tinha batido num carro que vinha em sentido contrário! Mas eu nem travei, tão distraído que vinha! Mas batemos no eixo da via, ela também estava fora de mão!" e fez um esboço. Certo. Era uma curva para a esquerda, para ele. Ele distrai-se e vai para o eixo da via. Ela entra na curva e depara-se com um carro no meio da via e um gajo a olhar para as vacas. Estanca o pé no travão, talvez carro sem ABS, derrapa para o eixo da via (lembro que ela curvava para a direita, física básica, derrapando vai para a esquerda). Ora para rematar "Eu não assumi culpa nenhuma! Os seguros que resolvam, a ver se fica a culpa dividida pelos dois!".

Chega um dia o indivíduo supracitado com um braço ligado, e marcas na cara (e no peito e abdómen, como tive mais tarde o desprazer de observar). Por alguma "bruteza" que fui adquirindo no local e também por temer a resposta, não perguntei o que se passou nem por delicadeza, mas a resposta foi-me dada sem pedir. Primeiro a versão "oficial" que disse a outras pessoas com quem falou: "Estava a fazer soda cáustica, para desentupir uns canos, e aquilo fez reacção muito forte e saltou-me para cima!". Achei estranha a quantidade que estaria a fazer só para desentupir uns canos, e fazer tamanha reacção, mas não sou especialista na matéria. Depois veio contar-me (e eu não perguntei...) que afinal "há uma árvore no passeio da rua, e as folhas caiem-me sempre para o jardim, e eu queria deitar a soda cáustica na árvore, para a matar! Mas a soda reagiu e saltou-me para o braço, a cara, a camisola, tudo! A sorte foi ter água mesmo ao pé e lavar logo!". E eu pensei: a natureza encarregou-se desta! Mas ele entretanto acrescenta: "Lavei-me, mudei de roupa e fui botar a soda na mesma! Já estava feita para isso, e pronto!".

E para já me fico com algumas, apenas algumas das histórias que retratam um típico português esperto, que enquanto trabalho, joga Solitário no seu computador.