quinta-feira, 19 de junho de 2008

Eppur si muove


"No entanto ela move-se" (G. Galilei)
É verdade que se move a Terra. Apesar de todos os contras, de toda a opinião contrária vigente durante muitos séculos. É também redonda. Os gregos sabiam-no, Eratóstenes (276 - 195 a.C.) mediu com alguma precisão o perímetro da sua circunferência máxima.
Mas os Homens esquecem factos no seu proveito. Políticas e Religiões (por vezes sem distinção) moldam os factos e a história para que todos dancem a sua dança. Todo o Homem o faz, na generalidade. É da nossa natureza convencer o próximo, levá-lo a aceitar-nos. Por Maslow, podemos inferir a razão pela qual o homem, numa situação de poder, procura a conquista de mais poder, sempre e cada vez mais poder. Daí a terra ter ficado plana até à idade média, enquanto o sol andava sorridente a passear os céus. Porque se eu disser que o mar é branco, e torturar e matar quem disser que é azul, todos vão concordar que é branco. E eu serei superior a eles, porque eu disse, e eles, contra si mesmos, concordaram.
Transpondo para os nossos dias: se fundamentalistas islâmicos ameaçam cartoonistas, devem estes últimos retraír-se? Se há o mesmo ou até mais petróleo a ser extraído diariamente, deve a expeculação dominar, e todos permitirmos? (e quanto a especulação, que domina os mercados neste momento, não vou adicionar mais para já) E nós, aqui neste país, Portugal, que nos deixamos enganar de forma ainda mais básica que os antigos romanos, que nesta política de "pão e circo" só nos dão o circo, e ainda esse o pagamos e bem pago: refiro-me ao futebol, por maior exemplo! O país em sérias dificuldades, a alimentação sobe, os combustíveis e energia sobem, a água sobe, os impostos pesadíssimos, e o povo a correr com bandeirinhas, a buzinar com bandeirinhas, a cantar o hino com a cerveja na mão, com um patriotismo futebolístico e hipócrita, mas feliz da vida, porque se por um lado "cá vamos indo, como Deus quer", por outro "Sou português! Vejo os jogos todos e Portugal vai ganhar! Somos os maiores!"...
É no meio deste circo que me vejo, no meio de um povo de olhos vendados por jogos de futebol e outras brincadeiras, de um povo que se habituou sempre a não ter o que quer, e encarar isso como normal e que "é a vida", e com isso, a não querer mais, a não querer melhor. Um povo que referenda leis do aborto por duas vezes, não é esclarecido em nenhuma delas, a facção vencedora no primeiro não faz nada do que se tinha proposto, no segundo o povo mantém a opinião e o resultado, e o governo, mostrando que o referendo não foi mais que uma distracção, mantém a sua ideia original e segue em frente com a lei! (não digo com isto que concordo ou discordo com essa lei, isso será para outro artigo) Resumindo, esqueceu-se a polémica da Casa Pia num instante, onde estavam implicados vários membros do governo, trataram-se OTAs e TGVs e Portagens... e o povo de volta do referendo, com a falsa moralidade e o falso humanismo a degladiarem-se brutalmente! Depois, como o Aeroporto da OTA não conseguia vingar (afinal, veio-se a descobrir que era um pântano...) o Governo aproveita para chamar a atenção do país inteiro para o assunto, e todos se embrulham em OTAs e TGVs porque é polémico, enquanto o governo fecha Urgências e Escolas e dá cabo do Ensino e da Saúde. Ora o povo distraído a comentar aviões e combóios, quando afinal todos andam no seu carro, mas acha que um TGV é demasiado para nós, então o governo vem, acaba com as opiniões e decide. E retalha-se o país para mais uma linha, e abre-se mais um aeroporto, e faz-se mais uma ponte no Tejo, assim como se fizeram 10 estádios de futebol, assim como se faz uma A29 paralela a uma A1, separadas em alguns sítios por umas centenas de metros, e se fazem obras e obras e construções e tudo num país desempregado, onde reina o subsídio para quem não produz, onde o jovem no desemprego recebe mais que o idoso com 50 anos de trabalho, onde não há dinheiro para pagar tanto crédito, mas os bancos sobem taxas e apresentam lucros que insultam quem realmente produz, onde há excesso de habitação, mas a construção permanece em alta e os preços não baixam. Onde o interior é a casa dos tios lá na terra, porque viver só se pode no litoral. É o país que tem o Engenheiro que é primeiro, mas não é engenheiro, mas afinal assinou trabalhos, mas afinal ninguém soma 2+2 se ele não é engenheiro afinal que trabalhos é que assinou, mas afinal se não é engenheiro porque é que não se retracta, porque é que não ganha vergonha, porque é que não ganhamos nós vergonha nele, o primeiro, que discute como um puto mimado no pré-escolar "não sou eu, tu é que és! não fui eu, tu é que fizeste!", um governo que cala a comunicação social, que é tão acutilante para umas coisas, e para o que interessa ao governo e nos deveria interessar acima de tudo, se cala! Não se chegou a lado nenhum com o caso Casa Pia, com a Universidade que assina o canudo do engenheiro primeiro, com tantos assuntos delicados para alguns e nada respira! Vem um jornalista, lança luz no caso, e o povo exalta-se até ao próximo jogo de futebol, ou até o próximo destaque dos reforços dos bombeiros (que afinal estranhamente nunca chegam nem são eficazes, porque o contrato tem esta ou aquela cláusula), ou fecha-se algures uma urgência ou o fisco vai arranjar forma de deitar abaixo uma empresa para que os olhos se voltem todos noutra direcção. E por trás, cala-se o jornalista.
E cá está reposta a paz, "como deus permite", um dia de cada vez, e sim, senhor, o mar é branco, a terra é plana... então se fosse redonda, quem estivesse lá em baixo caía, não é?
(imagem: desconhecido)

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