quinta-feira, 26 de junho de 2008

A guerra dos outros


Conflito de interesses de poder, falaram-me noutro dia do drama do homem-povo deste país, na guerra do ultramar. Do homem da terra, do homem do mar, do homem da serra e do homem da cidade, do homem que vivia no país pobre, do homem-povo esquecido que salvavam da guerra lá fora, para ter de lutar a terra para não morrer de fome cá, ainda que orgulhosamente só. Do homem-povo chamado para lutar cá dentro, mas lá fora, no ultramar, num clima que não conhece, com e contra um povo que não conhece, pegando em armas quando as suas mãos só conhecem a forma da enxada, do arado, da rede de pesca, matando gente, aprendendo a odiar, quando a sua luta era manter-se vivo e aos seus. Lutou a guerra dos outros, quando mais ninguém lutou a dele. Foi bala disparada pelos outros, quando ninguém mais pegou na sua enxada.

Voltou mudado, com medo e nojo no estômago, e raiva e ódio nos olhos e no sangue, com revolta e desprezo na face, sem conhecer quem lhe antes era querido. Voltou desprovido de amor, desligado de tudo, incapaz de se adaptar depois de ter estado na trincheira com a sua família, com os seus irmãos, capazes de dar a vida, de se atirar sobre uma granada e morrer, para que esta não ferisse os restantes, chegar e ser desprezado, por ter lutado a sua guerra deles.

Talvez porque o homem-povo que lutou a guerra que não era sua ser feito de silêncio e vazio num corpo que já não tem lugar porque se fez de guerra e a guerra já não é, talvez por isso o homem-povo só viverá quando nós filhos e netos viermos à luz falar dos abraços que o homem-povo não nos deu, porque já não os sabia dar.

Dedicado ao meu pai e ao teu.
(imagem: globoonliners.com.br)

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